sexta-feira, 5 de junho de 2026

40 anos: Introdução

     Vivo muito no meu mundo interno, tentando dar sentido e explicação pra tudo de mim, em mim, ao redor. E lido com isso escrevendo, um hobby que amo e me faz tão bem. Faz um tempo que venho escrevendo esses textos, afetada por uma introspecção intensificada por vários fatores, entre eles, o passar do tempo: chegar aos 40 anos. O que muda em mim, como cheguei aqui, o que me trouxe aqui. Esses textos foram organizados em 7 capítulos, quase como um livro informal. Tão pessoal e sincero, quase um resumo de anos de terapia. Uma forma de dar sentido, olhar para trás para ligar os pontos, e colocar intenções de como espero que o que me trouxe até aqui me leve até meus últimos dias, sejam eles daqui muitas décadas ou não. 

    Vou publicando aos poucos nos próximos meses. Os links estão na direita. Obrigada por ler!


sexta-feira, 4 de abril de 2025

As meninas com olhos profundos

Menina de cabelo liso e preto
Olhos profundos 
Cresceu desolada
Sem ser cuidada, sem ser vista
Quase esquecida
Criança sem mãe, tragédia
Cresceu e virou mãe

A filha
Menina de cabelo caracol e amarelo
Olhos profundos 
Cuidada, amada
Viu sua mãe triste
Tristeza é contagiante
Aprendeu a ter medo do mundo
A mãe precisou ir
Virou adulta sem mãe
Não deu conta de ser mãe

Todo dia converso com elas
Meninas de olhos profundos
Escuto e falo
E ganho muita coragem e força
Aprendo com elas e por elas 
Vivo por todos seus sonhos
Por tudo que elas não viveram

Estou com elas quando estou em meio as árvores
E montanhas e pássaros e rios
E céu estrelado
E cachorros saltitantes 
E livros sobre saúde e bem estar
E olhando no espelho prevenindo rugas 
E indo dormir com a melhor sensação do dia 

Todo dia quero ser mais feliz por elas
Desfazendo nossos traumas 
Descartando a necessidade de controle de tudo
Parando de regular o mundo pros outros 
Abrindo espaço pra me divertir
Conhecendo o mundo
Lendo todos os livros 
Ignorando preocupação com dinheiro
Desconsiderando a opinião do outro 
Derrubando todo esse peso que seguro
Escolho deixar a bandeja que eu tento equilibrar pelo vida cair
Tudo vai ao chão
E eu, com as mãos livres, sigo
Ao som da música ao fundo
Seja em acordes feliz e brilhantes
Ou melancólicos e calmos
Saio por ai, saltitante e feliz
E todo mundo me olha
E não ligo, sorrio de volta
E neste momento abraço essas meninas dentro de mim
Elas precisam ser cuidadas
Precisam também se divertir 
Eu criança medrosa e minha mãe preocupada
Crianças tristes
Pequenas no mundo
Que se escondem num canto pra serem invisíveis
Pra não atrapalharem ninguém
Não tomam espaço
Pra manter a paz pros outros
Meninas com olhos profundos e sorriso tímido
Tudo ficará bem
E mesmo que não fique
E vou cuidar só delas
E vou viver a vida por elas
Cheia de coragem
Alegria
Gargalhadas altas 
Tomando espaço
Deixando pra trás
Todos os medos que tiveram 
Todos os silêncios que obedeceram
Todas as listas que criaram
Todas as regras sem sentido que seguiram
Desapegada da vida
Deixar as pessoas serem o que são
Deixar as pessoas pensaram o que quiserem
Deixar as pessoas carregarem suas próprias dores 
Deixar as pessoas darem conta sozinhas
Deixar as pessoas irem embora
Ir embora
Ser autêntica
Errar
Leveza
Vida longa
Envelhecer
Olhos rasos
Sorriso largo


*Pra minha mãe que hoje faria 63 anos 

sábado, 1 de junho de 2024

Era uma casa

(de alguns dias atrás)

Eu me vi por gente lá na rua dos Palmares.
Falei, andei, ganhei irmão, ganhei a Susi.
Brinquei muito sozinha, meu irmão ainda bebê.
Uma vez briguei com uma vizinha, levei um soco.
Outra vez andei de bicicleta na rua, e perdi meu ursinho Pooh, que tinha colocado na cestinha.
Um dia meu avô caiu do telhado.
Veio ambulância, um caos.
Quebrou costelas. Ficou bem.
Comecei a usar óculos.
Vivi no maior quintal da minha vida.
Quando criança tudo é tão gigante.

Com sete anos nos mudamos.
Nova rua, com nome de homem.
Perto do bosque.
Lembro na primeira semana em que tudo era tão estranho.
Eu olhei pelo portão e pensei como seria a vida ali.
Foi uma vida toda.

E essa foi a casa em que virei eu.
Esta casa viu todas as minhas versões.
Criança, adolescente, adulta.
Universitária, imigrante.
Filha, orfã.

Foi uma casa em construção.
Nos mudamos tinha só um quarto.
Depois o quarto virou sala de tv, e ganhamos mais um quarto, e outro, e outro.

Meu quarto tinha uma parede de madeira e outra pintada de rosa.
Armário com espelho.
Ouviu muito Legião, Capital, Bon Jovi.
Madrugadas na internet gratuita.
Icq, msn.
Amigas dormindo.
Festas de aniversário.
Quando vi que passei na USP.
Quando vi que passei em Harvard.

Sai dessa casa pra fazer faculdade.
Mas voltava de duas em duas semanas.
Todas as férias.
Depois ainda morei de novo nuns intervalos da vida.

Esta casa tem pouco mais de 30 anos.
Por 14 foi a casa da minha mãe.
Por 20 do meu pai.
E tantos cachorros.
E tantos momentos felizes de conversar na beira da pia, na escada da porta da cozinha.
Uma casa sempre barulhenta.
Latidos.
Rádio da minha mãe.
Tv alta do meu pai.
Almoço sendo feito.
Visitas de família.

Sempre com jardim
Coqueiro
Janelas abertas

Um dia a gente saiu dela de carro com minha mãe e ela nunca mais voltou. 
A gente não sabia. 
Foi o maior trauma da minha vida.
Um outro dia sai de carro com meu pai, e ele nunca mais voltou. 
Eu já sabia. 
E então fiz uma das coisas mais difíceis: esvaziar esta casa. 
Guardar poucas coisas em caixas.
Desfazer de todo o resto. 

Viver sem ter a casa dos pais
É um viver sem porto mesmo.
Navegar sem ter pra onde voltar.
Da uma angústia do caramba.
É um tipo existencial de solidão.

A casa dos meus pais já não existe há 10 anos.
Mas hoje oficialmente a casa física sai das nossas vidas.
E sempre há um tanto de tristeza em deixar as coisas irem embora. 

Obrigada pai e mãe por construírem nossa casa.
Por terem criado um lar e família que só me trazem lembranças boas, de cuidado e atenção.
Obrigada casa por ter cumprido seu papel
De ser a casa dos meus pais.