terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Aquele dia ja chegou

Eu estou aqui esperando o dia em que eu more numa casa com mais espaço. O dia em que não haja estresse no trabalho. O dia em que eu tenha um salário maior para que eu não me preocupe muito com coisas que o dinheiro da jeito. O dia em que as pessoas sejam diretas em comunicar o que precisam. O dia em que eu tenha confiança o suficiente pra não me preocupar com o que os outros pensem. O dia em que eu não saiba separar bem o que é do outro e o que é meu. O dia em que eu me sinta o suficiente e possa de verdade relaxar. O dia em que as pessoas aceitem quem eu sou por completo, sem cobrança, sem levar nada para o pessoal. Estou aqui esperando, esperando...voce também?

Esperando esse dia que nunca vai chegar, porque a gente sempre inventa coisas novas para esperar, e a gente só corre e corre, e a linha de chegada se afasta mais e mais. Até que um dia, sem que voce espere, acaba. Essa corrida só acaba quando tudo acaba mesmo. Acaba no dia que voce for embora.

Então antes disso, por favor, abandone essa corrida, pegue o trem, sente e aprecia o que vier até você. Os dias azuis e os nem tanto. Aprenda com todos, veja boniteza em todos. Veja o que voce tem hoje, e pare de correr. Acredite, voce não quer chegar mais rápido. Você precisa querer que tudo pare no tempo, e que todos os dias andem assim, bem devagar, em camera lenta. Ande mais devagar. O único dia que vale é hoje. E a única corrida que vale é ser um pouco melhor do que você foi ontem.



sábado, 14 de dezembro de 2019

Por que eu não paro de escrever sobre vocês


Hoje lavando a louça lembrei de uma cena que aconteceu algumas vezes na minha adolescência. Minha mãe gostava muito de bebês, e surgiu algum assunto relacionado a bebês, e de ela um dia ser avó. E ela disse algo assim: “Ai será que Deus vai me permitir essa benção?”. E eu sinceramente achava que aquela incerteza não fazia sentido nenhum. “Por que ela não seria avó?” Naquela época eu vivia num mundo em que não passava na minha cabeça a ideia de eu não ser mãe. E hoje eu aqui lavando a louça, na altura dos meus 33 anos, sem certeza se quero ou não ser mãe, chorei pensando em como independente do que acontecer na minha vida, Deus não permitiu. Chorei. Pensei em como tantas outras coisas não foram permitidas, e como minha mãe tinha mais noção da vida, e sabia que nada era dado.

Meu luto elaborado está aqui, faz parte de mim. Por muito tempo, ainda dentro do processo, vivi meio que sem entender como. Como consigo viver com essa ausência? Mas depois esse luto se tornou parte de mim. E hoje vejo tudo como um filme muito triste, que faz a gente chorar, e depois passa. Só que ao invés de um filme, são memórias. Que podem vir de uma hora pra outra. Eu me permito sentir isso. Me permito chorar. Me permito contar sobre minha mãe e meu pai sempre que há oportunidade, mesmo que tantas pessoas não estejam prontas pra falar de memórias. Ou talvez ainda seja avassalador pra elas, porque elas ainda não sabem que a gente sobrevive a esse tamanho de falta. Quando extravaza, eu venho aqui, e escrevo.

Pode passar o tempo que for. Mesmo com esse luto elaborado, eu continuo repetindo seus nomes, continuo escrevendo sobre minha mãe e meu pai, e sobre essa dor, que embora se chame dor, não seja feia nem aterrorizante, como um dia já foi. É uma dor bonita, que vem de coisas tão bonitas que existiram, que me fizeram eu, que deixaram tantas palavras, fotos, gostos, profundas marcas no meu inconsciente. E ao transformar essas pessoas em memória, essa dor deixou tanta coisa pra trás, coisas que nunca aconteceram, tudo vai para uma outra dimensão que invento, crio historias, possibilidades. Imagino.

Continuo sonhando com eles, continuando imaginando como seria ter 30 anos com pai e mãe. Como seria ter minha mãe para conversar comigo, ou meu pai pra me fazer rir de bobeira. Como seria discordar sendo tão adulta. Como seria mostrar o mundo pra eles, poder devolver o que eles me deram. Como seria meu pai caduquinho, minha mãe com rugas. Penso muito nas impossibilidades, de tudo que não foi permitido.

Eu continuo repetindo seus nomes, porque eu não existo sem vocês. Não fisicamente, mas em memória, vocês, fundadores, doadores da vida. Por isso que falo, escrevo, até o dia que eu for. Porque ao falar de vocês, vocês existem, e eu existo.

Eu sei o que vocês pensariam sobre tudo. Eu sei como vocês seriam em 2019. Mas vocês não foram. Em 2019 vocês são memórias. E eu sou uma pessoa inteira, metade pessoa, metade memória. E eu sempre vou falar de vocês.

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Escrevi uma parte desse texto depois de ouvir a um episodio chamado Irmãos, no podcast Mamilos, que foi a coisa mais linda. Num momento uma pessoa contou a historia de um rapaz que tinha perdido a irmã. E o psicólogo Alexandre Coimbra falou tao bonito sobre a morte. Transcrevo abaixo:

"Diante de uma perda desse tamanho, eu quero te dizer algumas coisas. Em primeiro lugar, que a morte é essa senhora, arteira, que lambe assim, de uma hora pra outra, os sonhos, e leva tudo. E a gente fica inerte mesmo. A gente cai num buraco, e eu quero te convidar para estar sem tempo certo pra encostar suas costas nesse buraco. Você vai perceber que ele é um útero, porque quando a gente é visitado pela morte a gente é redesenhado completamente. A morte é uma caneta que redesenha o contorno da nossa vida. E ali, na hora que você estiver com suas costas apoiadas neste vazio, que você tenha sempre oportunidade de falar da Mari, de visitar a Mari. Elaborar o luto não é esquecer, não é fazer com que a pessoa deixe de ser importante. Elaborar o luto é sempre dizer olá novamente, é sempre ter o direito dessa pessoa estar revistada na suas palavras, na suas falas, nas suas histórias, nas fotos, nos filmes, nas cenas divertidas, na lagrima, na gargalhada, no silencio. Essa importância que ela teve é um presente, que você recebeu, da possiblidade de você ter tido ate aqui uma convivência tão intensa e tão frutífera como irmã. Que a partir de agora ela possa continuar existindo e que o mundo sempre possa te ofertar pessoas que estejam dispostas a escutar suas historias com ela. Porque uma das maiores tragédias que pode acontecer com uma pessoa enlutada é ela ter que matar essa pessoa de novo ao não ter interlocutores com quem conversar sobre as historias dessa pessoa que foi. Então muito obrigado por trazer uma historia tão linda, que nos deixou todos emocionados. E lembra a gente que o tamanho da saudade é o tamanho da importância."


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Oceano

A ida dela foi daquelas que partem a vida em duas.
A que eu era, a que eu sou.
Duas.
Era uma menina gigante numa casa pequena.
Com paredes, com para sempres.
Bastava.
Agora uma mulher pequenininha num mundo todo.
Preciso de mapa, tradução.
Me perco.
A pior dor do mundo não é física.
Mas passa, assim como quase tudo.
O que fica?
O que aprendi:
Que sou pequena, num mundo de finitudes.
Onde as almas vão e vem.
Passam pelo rio, e deságuam no mar.
Todos nós, nos achando rio, quando somos oceano!
Eu gigante sabia menos que eu pequenininha.
Eu gigante achava que você me pertencia.
Mas sua ida foi daquelas que partem a vida em duas.
A que você era casa, e a que você é o mundo todo.
A montanha verdinha lá no vale.
A música do Freddie, do Ivan,
e aquela sobre a imensidão do universo em nós.
O gosto de salada de fruta e de coxinha.
Um jardim no Japão.
Uma cachoeira na Suíça.
O raio do sol que passa pelos galhos.
Meu insconsciente tão bagunçado.
Nossa vontade de ser orgulho.
Um olhar no espelho por meio segundo.
As risadas das minhas tias,
e os olhos grandes das crianças.
O pinhão que dá lá na sua serra.
O passarinho que cantou a manhã inteira,
porque é o primeiro dia da primavera
E a maioria dos dias ainda são felizes.
Você foi só deságuar.


(A ida dela foi há 11 anos, num 12 de agosto)


quarta-feira, 12 de junho de 2019

O último dos ascendentes


Desta árvore, quando eu nasci, apenas faltava Benedita. A vó Ditinha, que não conheci, cuja morte mudou a vida da minha mãe e seus irmãos. Era dela o luto que eu conhecia, que minha mãe tinha, de sentir falta do que ela nem sabia como era, de ter uma mãe. Meu vô Antonio, desde que me lembro, chorava e sonhava com a Ditinha, mesmo tendo casado de novo. Para mim a vó Ditinha sempre ocupou o papel de uma quase santa, que foi-se tão cedo, cuja ausência doia tanto nos filhos e marido, mesmo décadas e décadas depois.

Hoje destes ramos e galhinhos todos, só existe eu e meu irmāo. Nosso último ascendente, o vô Antonio, foi embora dias atrás. Foi la encontrar a Ditinha e sua filha, minha mãe. Foi, depois de criar os filhos com dificuldade, mas com sucesso. Foi amado, cuidado. Não teve estudo, mas contava um causo como ninguém. Tinha a risada mais alta e gostosa do mundo. A última vez que o vi, já debilitado, comentou que tinha visto minhas fotos, perguntou da minha vida, mostrava amor de uma maneira que é tão própria na familia. Missāo cumprida nesta vida!


Ocupando meu lugar no mundo

(5 de Junho, 2019)

Hoje antes do trabalho fui por 30 minutos num café da manhã para ex-alunos da escola onde fiz mestrado. Entrei na sala um pouco atrasada, e todo mundo estava já em conversas informais em grupinhos. Vi uma mesa com apenas duas pessoas, e cheguei falando oi, tentando entrar na conversa. Se você já tenha me visto pelo menos uma vez na vida talvez desconfie que eu não gosto muito de situações assim, de ter que conversar com desconhecidos. É uma das atividades mais fora da minha zona de conforto, e eu sempre achei que era por eu ser tímida. Olha, eu sou tímida sim. Mas com o passar da vida, o que eu não sabia com 20, mas já sabia com 30, é que existe tantas formas de ser gente, tantas formas de ser "normal". E muitas vezes crescendo, se descobrindo, a gente se prende numa gaiolinha tentando se encaixar num perfil, seja lá de que, de personalidade, de carreira, de beleza, de ações, de crenças. A gente se liberta quando aceita que não precisa ser nada além de ser a gente mesmo.

E esse ser “a gente mesmo” é fluido, irregular, mutante, aprendiz. E apenas depois de saber quem eu sou, de aceitar erros, qualidades, tipos, que a gente se possibilita aprender, melhorar, sair da zona de conforto com segurança. A gente se liberta quando chama as coisas pelo nome.

E aprendi depois de adulta que gostar de ficar sozinha, não gostar de conversas superficiais, se sentir exausta depois de um dia simples, ser afetada fortemente por pessoas e ambientes, preferir ter ideias pensando dentro da cabeça que falando, ter poucos grandes amigos, amar o silêncio, tudo isso é o que eu sou: introvertida e altamente sensível. É apenas um modo de viver no mundo, que me faz perceber detalhes que algumas pessoas não percebem, que podem tanto me ajudar no trabalho quanto me sobrecarregar de manheira sufocável. Existe um mundo gigante e barulhento dentro da minha cabeça, e todo dia preciso processar esse barulho, sozinha, de maneiras variadas, quase todas em silêncio: caminhando, escrevendo, pensando.

No café, na mesa de duas pessoas, ouvi um pouco sobre a senhora que trabalha há 10 anos na faculdade de direito, e que ama o que faz, embora se sinta as vezes insegura por ser a única pessoa no departamento sem um diploma em direito. Ouvi do senhor, professor na faculdade de educação, que ele ensina cursos sobre diversidade para futuros diretores de escolas. Senti uma certa abertura para ser eu mesma, do jeito que eu sou, uma pessoa que não gosta de conversas superficiais. Contei que uma senhora no meu trabalho esta lá ha 33 anos, e que eu sempre brinco que minha mãe estava grávida de mim quando ela começou a trabalhar lá. Contei que, a propósito, hoje faço 33 anos, e ficar mais velha é tão bom, "é o objetivo ne"? Contei sobre como gosto do meu trabalho porque sinto que estou aprendendo coisas novas o tempo todo, e como isso era sempre o mais importante. Contei como gosto com o passar dos anos de pensar em o que eu não sabia há 5 anos, e das inseguranças que eu tinha há 5 anos, e como gosto de pensar em quais inseguranças e faltas de hoje vão ter passado em 5 anos. Falei tanto em 10 minutos. O professor contou que sua filha tem minha idade, e fez vários paralelos entra ela e eu.

Eu fui embora rápido, até porque comecei a me preocupar de estar sendo “estranha”. Existe este espelho fosco que tento quebrar: como perceber o outro sem ser apenas um reflexo distorcido do que percebi? Achei que me acharam x. Quem disse? E se acharam? A gente se liberta quando diferencia o que é meu, o que é do outro, e o que não pertence nem a um nem ao outro.

Meu dia começou tão bom que depois de ter conversas profundas com estranhos, emanando o que eu sou sem medo do outro, recebi um email da mulher com quem conversei, me agradecendo pela conversa. Ela me libertou. Ela me mostrou que ao escolher ser quem eu sou para o mundo, eu posso ser, sem medo. A gente se liberta quando percebe nossa energia indo para o mundo, e não apenas absorvendo o que vem até a gente.

Todo dia eu quero escolher ser eu, com espaço para aprender, melhorar, mudar, mas nunca com medo de ser. A gente se liberta quando ocupa nosso espaço no mundo. E hoje neste mundo eu sou Aline, 33 anos, imigrante, cidadã do mundo, com olheiras deste os 13, que recuso convites, que me isolo para me recarregar sem vergonha, filha de pais-memórias, que gosta de trabalhar, gosta de aprender coisas aleatórias, não sabe cozinhar, não sabe escolher presentes, se distancia das pessoas, vive muito dentro da própria cabeça, tem vicio em celular e carboidratos. Mas amanhä não sei o que serei, só sei que serei melhor que hoje.

"THE CURIOUS PARADOX IS THAT WHEN I ACCEPT MYSELF JUST AS I AM, THEN I CHANGE." ~~CARL ROGERS

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Quinzes de Fevereiros

O ciclo da vida às vezes segue o ciclo de números criado pelos homens, de dias, meses, e ano. Me encanta. Meu pai teve seu primeiro dia de trabalho depois de passar num concurso no dia do aniversário da minha mãe. Meu primeiro dia de trabalho de carteira assinada foi no dia do aniversário do meu irmão. E assim vai. Alguns dias parecem carregar importância pela vida. Hoje é assim. Num 15 de fevereiro enterramos meu pai num cemitério gramado no alto de um morro, cercada de amigos e familiares queridos. Naquela tarde dirigi o carro dele de volta do cemitério até nossa casa, e minhas mãos até tremiam de tão besta que eu estava de olhar de frente aquela vida que começava sem ele de forma tão simbólica. Ele já não estava ali e em lugar nenhum, depois de dias tão intensos no hospital. Dormi na sala de casa naquela tarde, e acordei com o dia já escuro sem entender como tudo ainda existia. Uma das piores sensações que já senti na vida é a súbita constatação de que alguém tão importante não vai mais existir. Nunca! Hoje, 15 de fevereiro de 2019, 5 anos depois, estou aqui tão longe daquela casa, e tão longe da minha atual casa, viajando muito longe para uma entrevista de emprego no vale do silício. E hoje, tão longe daqui, está meu irmão apresentando o trabalho de conclusão de curso, na melhor universidade da América Latina, se formando num curso que ele escolheu, segundo curso que ele passou na USP.  Não foi fácil! Meu irmão lutou muito pra tudo que conseguiu na vida até agora, quase que sem ajuda nenhuma. Fez cursinho e a faculdade toda já sem pai nem mãe, trabalhando, fazendo sacrifícios. A vida dá voltas. O trabalho no vale do silício pode até não  rolar. Mas meu irmão se formou. E se aprendi uma coisa nessa vida é que precisamos estar preparados, para os melhores e os piores dias. Eles todos vão vir, nem sempre numa ordem lógica, mas virão. Não fique preso neles. Esteja sempre preparado para seguir. Logo o tempo vira. Por hora tenho hoje o maior orgulho, que vale por três!