segunda-feira, 4 de abril de 2022

A Vida da Minha Mãe

Faz dias que estou presa neste dia: 4 de abril de 2022. Hoje minha mãe faria 60 anos. 

60. Idade que meu pai morreu. Idade tão longe dos 46, em que ela parou de contar. Meu primos que eram bebês quando ela morreu já são adolescentes. O tempo! Seus 46 anos, não tão longe dos meus 35 anos. Quão preenchidos são seus anos? O que poderia ter acontecido se ela estivesse aqui? Sou dessas de pensar muito em números, dos ciclos, do que se repete, de tudo que a gente vive enquanto a Terra segue dando suas voltas no Sol.

Há 60 anos minha mãe nasceu, na roça, sul de Minas Gerais, numa família gigante, dessas que tinham filhos em escadinha. Ela era a terceira, a filha mulher mais velha. A mãe, dona Benedita, teve 7 filhos, e só não teve mais porque morreu cedo, aos 30 e pouquinhos. Dona Benedita tinha uma doença psiquiátrica, acho que os médicos da época não souberam identificar. Nunca entendi ao certo do que morreu. Foi uma tragédia: uma mãe deixou 7 filhos desamparados, o mais novo ainda bebê. Minha mãe tinha uns 7 anos, e ganhou responsabilidades. Subia em tijolo pra cozinhar no fogo de lenha. Nenhum dos irmãos tiveram uma vida fácil. Foram cada um pra um lado, para serem cuidados por tias e avós. 

Minha mãe estudou só até a quarta série. Pré-adolescente, foi morar com uma senhora, que dava casa, mas também dava serviço. Ela limpava, cozinhava. Quanta resiliência! Crianças e jovens crescendo, sem muita proteção, sem lugar seguro, sem direito de sonhar com nada, sem uma casa estável, precisando trabalhar.

Minha mãe morou com essa senhora até os 17 anos, quando começou a namorar meu pai, e a senhora achava muita responsabilidade cuidar de "moça nessa idade de namoro". Minha mãe foi então morar com a avó, que já cuidava de outros irmãos mais novos. Ela nunca se sentiu muito incluída, ou cuidada. Nessa época um tio e o avô foram as pessoas que mais a acolheram. 

Minha mãe só teve uma casa quando se casou, com quase 23 anos. 

Aos 46 anos minha mãe teve um câncer, descoberto tão no final da vida. Uma semana antes de morrer, na última noite que não dormiu no hospital, deitei numa cama de solteiro com ela, e por horas e horas ela me recontou essa história. Sua história. Que tantas vezes antes ela tinha me contado. Que eu, criança com casa, com quintal, com escola, com pai e mãe dedicados, sempre achei tão triste. 

Dessa vez, sentindo a gravidade da doença, e o corpo dando sinais de que a vida estava por um fio, ela recontou a história, com uma conclusão tão triste mas tão ao mesmo tempo feliz: ela concluiu que só começou a ser feliz aos 23 anos, quando se casou com meu pai. Quando enfim teve sua casa, suas coisas, sua família. Perfeito não foi, claro. Mas fomos uma família feliz! 

Naquela semana, depois de ser feliz por muitos anos, minha mãe foi embora. E naquela semana, eu com meus quase 22 anos, comecei a fase da minha vida com mais dias tristes. Venho pensando muito na vida da minha mãe, como ela cresceu, como ela viveu, sua rotina, o que a fazia feliz. Uma vida tão diferente da que levo hoje. Penso muito também nos seus traumas, alguns que eu ainda carrego por ela. Penso na minha obrigação de ser feliz por todos os dias desses 60 anos em que minha mãe não pode ser feliz.  

Hoje agradeço por sua vida, por minha vida, por ter te feito feliz quando pude. Saudades até o fim dos meus dias!



sexta-feira, 27 de março de 2020

Lírios do Campo


Tá sentindo o vento virando, de frio ficando morno, ar parado, silêncio?
Tá vendo os passarinhos tomando rumo para longe, e as árvores se enraizando esperando o temporal?
Tá ouvindo o sino tocando a uma da manhã, acordando todos os que dormem, anunciando que é hora de arrumar as malas, se desfazer dos pesos extras, ajeitar bem apertado só o que vale a pena, e correr?
Tá sentindo o chão tremendo, uma leve mas constante sacudida, desfazendo os caminhos conhecidos, e criando trilhas que não estão nos mapas?
Tá vendo o trincado no relógio da igreja, que fez os minutos virarem segundos, e os ponteiros da hora pularem três dias?
É agora! Corra! Mas para onde? "Basta a cada dia o seu mal"?
Coragem!

O sol continua, mas as nuvens não se movem, a vila está vazia, e as promessas foram quebradas.
Todas as certezas viraram pena, que a gente joga lá do alto, leve, dançante, vai pra lá, e pra cá, quase enganando a gravidade, voa mais quanto maior a resistência.
Não haverá mais o comum, o normal, o conhecido.
Você vai perder o que mais teme: o controle.
Livre! Você, e todos os rumos da vida.
"Vos inquieteis"!
1% vai virar 100 mil, e do leste irá pro oeste, e ninguém mais vai cruzar oceanos.
A vida, que a outra geração nos serviu, acabada, lá no carnaval, varrida pras esquinas, pro lixo, pro bueiro.
A purpurina se espalhou no vento já morno, com as cinzas da quarta-feira.
E você nem percebeu, até que te faltou ar, faltaram camas, faltaram máscaras, faltou gente.

E agora, da tarde para a noite já não se sabe o que será da manhã, se gente ou sombra, se haverá o que comer, o que viver, o que vestir.
Tá vendo? Já cortaram os lírios do campo.
E as ruas são deserto, e as filas multidão: pro ar, pras esmolas, pro pão.
Mas você só pode escolher um 
(Quanto vivo sem pão? Quanto vivo sem ar?)

Tá ouvindo? Estão batendo nas portas, com força, fome, coragem, e espanto.
E vão bater por mais cinco noites, e dois dias.
E vamos entrar.
E vamos achar as casas vazias, com lustre, piano, e piscina.
O pão embolorado acumulando na dispensa, e nos quartos os corpos já sem ar há quinze dias.
Toda gente tem a mesma cor de ossos.

E em procissão vamos subir a montanha para enterrar todos os que não puderam se despedir.
E vamos pedir que nos conte como é viver sem futuro.
Mas quem sabia já se foi antes de nós.
Seremos sem história, sem mapa, sem medo.
E no dia seguinte acordamos sabendo que o mundo acabou, mas que ainda estamos aqui.
E vamos juntar todos os cacos, ruínas, gravetos para criar o mundo que sonhamos embaixo do abacateiro do quintal da nossa infância.

Um mundo em que somos fortes mas nem tanto.
Onde construímos belezas.
Onde pausamos para dores e não dores.
Onde não se compra tempo.
Onde todos são responsáveis por todas as árvores.
Onde ninguém tem mais do que precisa.
Onde não precisamos escolher entre ter pão ou ter ar.
Vamos então respirar, olhar em frente, e seguir.
Vejam os lírios dos campos.
Somos todos história.




domingo, 26 de janeiro de 2020

Viagem no Tempo


Estou eu aqui vivendo na próxima terça-feira.
Coisa sobrenatural.
Máquina do tempo.
Vivendo três dias no futuro.
Vivendo o projeto para entregar para um cliente exigente.
Vivendo todas as formas em que posso falhar.
Vivendo todos os 10 possíveis desfechos de uma reunião cheia de egos e perspectivas.
Todos os 10!
Em um fiquei feliz e orgulhosa de saber o que falar.
Falei “entendo sua perspectiva fulana, e sinto muito se meu email pareceu rude. Não foi minha intenção”.
Em outro fiquei triste.
Gritei “fulana, você tem que nos tratar com respeito!”
Estou aqui vivendo no futuro ao invés de viver hoje.
Hoje, um sábado chuvoso e frio, sem planos nenhum, em que posso ficar sozinha, em paz.
Fazendo o que eu quiser fazer, o que eu escolher.
Podia passar metade do dia lendo um livro incrível, fazendo yoga, assistindo meus programas favoritos.
Rindo, feliz, sem preocupação nenhuma, vivendo no hoje com toda sua paz.
Mas estou aqui, vivendo na próxima terça-feira.
Usando essa máquina do tempo
Com a desculpa de me preparar completamente para qualquer situação.
Controle! Que ilusão!
E o coração acelerado, nó no estômago.
Tudo preparado para correr do leão a qualquer momento.
Ao invés de estar no único momento que realmente existe:
Agora!