sábado, 25 de julho de 2026

2. Medo

   

“Eu tenho medo e já aconteceu.
Eu tenho medo e inda está por vir.
Morre o meu medo e isto não é segredo.
Eu mando buscar outro lá no Piauí."
Belchior

O mundo sempre me pareceu um pouco assustador, e ando por aí com cautela e prestando atenção nos perigos e riscos que possam estar no caminho. Este capítulo talvez seja resultado de muitas sessões de terapia, e embora exija um tanto de vulnerabilidade escrever e compartilhar, vem de um lugar de muita consciência, cura e coragem. 

Talvez o começo seja antes de mim. Li recentemente o livro “Não começou com você”, que me fez pensar no quanto minha mãe ter crescido num ambiente sem segurança e cuidado possa ter influenciado como eu encaro o mundo. Seja pelas histórias contadas por ela, ou na forma dela lidar com o mundo e seus medos, ou epigenética. O mundo inseguro e desolador da infância dela respingou em mim.

     Quando criança meu medo aparecia como timidez excessiva. Eu tinha muito medo de pessoas. Na primeira escola, com 4 anos, eu era quieta, quase muda, fazia tudo que pediam, mas não conseguia conversar. Talvez hoje eu seria diagnosticado com algum nível de autismo. Em casa e com meus primos eu conseguia sim ser expressiva. Mas qualquer lugar longe de casa ou da minha mãe não pareciam seguros para qualquer expressão de mim. Talvez meu maior medo sempre foi causar problemas para os outros. 

Da primeira série ao me formar no Ensino Médio, estudei na mesma escola, que era relativamente pequena e fazia parte da igreja que eu frequentava. Morei sempre na mesma casa e rua. Então cresci dentro de uma comunidade estável, o que facilitou muito a vida da criança tímida, me ajudou a ter amizades bem fortes, mas não ajudou no desenvolvimento de outras habilidades sociais: por muitos anos só frequentei lugares familiares, demorou para aprender que eu sobreviveria no não familiar.

E mesmo naqueles ambientes familiares, parecia haver um risco grande se eu não fosse a boa aluna, quieta, comportada. De novo, o medo de causar problemas. Críticas e julgamentos eram muito temidos.  Tenho algumas lembranças de momentos na infância em que “não me comportei bem”, seja por dizer uma palavra errada num jogral da escola, ou de tramar esconder um boné de um colega, ou esbarrar num outro estudante e derrubar seu lanche: todas situações completamente corriqueiras e nada sérias. Mas as críticas e julgamentos vindos dos outros doeram em mim de forma tão intensa, que ficaram gravados na memória de maneira bem marcante. 

Mas ainda bem que no caminho da vida existe a adolescência! Hormônios e descobertas foram remédios naturais que desligaram um pouco este sistema de alerta. E foram anos incríveis, como a adolescência deve ser, com aventuras e riscos, ainda bem. Tive também a sorte de ter um grupo de amigos para dividir esses momentos, que se tornaram quase família. Me vi adolescente cheia de sonhos e vontades de me aventurar no mundo, morar em outras cidades, explorar outras formas de vida. 

Eu cresci não indo tão longe de casa. Minha família fazia viagens de carro que no máximo duravam 3 horas. Qualquer lugar além me parecia um mundo muito distante. Naquela época existia muita ambiguidade em mim: a menina medrosa que só se sentia confortável em casa, sentia também o mundo a chamando para conhecer mais. A busca por segurança e por aventuras, juntas, quase sempre.

Quando terminei o ensino médio, algumas semanas antes de começar o cursinho, passei uns dias na casa de uma tia querida em São Paulo. Naquela semana andei pelo centro de São Paulo com meu primo, conheci a cidade um pouco mais de perto. Lembro da sensação estranha de acordar com os barulhos de muitos carros. Aquela semana foi curta, mas mudou alguma coisa em mim. Me fez sentir mais confiante que eu tinha que explorar novos lugares. 

Passei no vestibular, e me mudei para São Paulo, com 18 anos. O primeiro ano de faculdade não foi fácil. Eu passava muitos finais de semana em Cruzeiro, e na volta para São Paulo, quando o ônibus ia chegando na rodoviaria do Tiete, me dava sempre uma sensação de medo grande. Não sei se pela distância com a família, ou de chegar e estar em volta de tanto desconhecido, numa cidade gigantesca. Estar na cidade grande tem também um tanto de lidar com medos objetivos. Estar em volta de desconhecidos em outro nível. Maior criminalidade. Se preocupar mais em prestar atenção na rua. 

Ano passado peguei uns diários antigos pra ler e me surpreendi ao lembrar como eu tive muito medo dessa mudança. Medo de não fazer amizades, de me perder de mim, de não me acostumar. Quando li esses diários, mais de 20 anos depois, senti de inicio uma sensação desconfortável de vergonha. Como eu tinha medo de tentar outras vidas! Mas depois de um dia como aquele desconforto, comecei a perceber que eu quase não me reconhecia mais naquela menina descobrindo o mundo com tanto medo, embora me lembre muito claramente ter escrito e vivido aqueles momentos. Fiquei depois com muito orgulho daquela menina, que tímida e sem confiança saiu de casa, aprendeu, se virou. Lendo aqueles textos eu não acredito que aquela menina teve coragem de mudar de país. Fiquei também com pena daquela menina, melancólica, preocupada, sensível, mal sabia que depois de poucos anos ia ter que ver a mãe e o pai irem embora. Pensei em como aquela menina não sobreviveria. Mas sobreviveu. Sobrevivi.

São Paulo me surpreendeu, e os anos de faculdade abriram o mundo para mim de maneira dramática. E eu fui feliz naqueles anos de faculdade! Tive a sorte de fazer amigos logo no começo e levá-los comigo por toda a faculdade e até hoje. Pessoas com quem me identifiquei tão rapidamente, e nos acolhemos. Talvez por eu ter estudado sempre no mesmo lugar e conhecido sempre as mesmas pessoas, eu não soubesse ainda que era possível conhecer pessoas como eu, fora do meu mundo. Na verdade, os amigos que fiz na faculdade e na república pareciam como um reencontro, de uma parte minha que talvez não tivesse ainda aparecido. Aos poucos estar longe de casa foi se tornando um sentimento também familiar. 

No quarto ano da faculdade fiz um estagio num IML dentro de um hospital que recebia vitimas de violência sexual. Meu trabalho, como estagiária de psicologia, era estar na ambulância que trazia as vítimas (mulheres ou crianças) das delegacias até o hospital para fazer o exame de corpo de delito. Eu estava ali para conversar e acolher. Foram poucos meses mas me colocaram em contato com outras realidades de vida. Muitas das delegacias eram em regiões periféricas da cidade, levava às vezes 2h para a ambulância chegar. Escutei histórias de vulnerabilidade social tão distantes da minha realidade de segurança e proteção. Cresci muito naqueles meses.

Na mesma época deste estágio minha mãe ficou doente. Vou escrever mais sobre ela depois. Mas por aqui quero contar como a doença e morte da minha mãe foram uma quebra tão intensa de um nível de estrutura segura que eu tinha na vida, e não consegui processar corretamente pela rapidez e intensidade dos acontecimentos e dores. Foram semanas intensas lidando com uma situação sem esperança e solução, independente do que eu fizesse. Conversas com médicos, todas de notícias ruins. Esperas por exames, sempre péssimos. E no final estava ali um penhasco gigante, em que minha família cairia, não importasse o que a gente fizesse.  

Por mais que minha personalidade tenha sempre sido cuidadosa e preocupada, depois da morte da minha mãe passei a ter ansiedade generalizada. Como se meu neurônios soubesse muito rapidamente o caminho de sentir que algo terrível está por acontecer. Estou sempre em alerta, procurando com o que me preocupar, ou como estar preparada para o pior. 

Nos últimos anos, com terapia e morando num lugar mais calmo, consegui entender e explicar essas conexões. Mas existem também fatores objetivos. Acredito que viver sem uma forte rede de apoio, por ser estrangeira e por não ter meus pais, me sinto vulnerável, o que piora a ansiedade. Viver em alerta tem um tanto de querer estar preparada, e de não ter um porto seguro. Tento aprender que outros portos também são amigos, e nos naufrágios, existem botes salva vidas. E se falharem?

Sei que este problema não é só meu. Rede social, instabilidade social, o trauma da pandemia, famílias menores, a rapidez de tudo, sem dar tempo de processar. Nossos cérebros estão cansados. Pedem mais calma para dar conta do mundo. Nos últimos anos tenho tentado dar tempo ao meu cérebro. Tentando, nem sempre conseguindo, diminuir tudo que pede pressa e rapidez, como horas em rede social. Ler e focar mais em um assunto por vez.  Não dar a falsa impressão de urgência constante, ao nosso corpo e cérebro, que entendem a urgência como perigo.

Tenho também tentado não ter medo de errar ou desagradar, meu maior desafio. Um dos livros que me influenciaram recentemente foi “Corajosa Sim, Perfeita Não”, da Reshma Saujani. A principal ideia é que no geral meninas são criadas para serem perfeitas e temerem erros. Enquanto meninos são incentivados ao risco e aventuras, mesmo que se machuquem ou errem. E essas diferenças acabam contribuindo para que mulheres se limitem mais, e vivam mais em função de agradar o outro, e não criar problemas. Percebo que existo no mundo tentando não tomar muito espaço, sempre agradar, não criar conflitos, sempre concordar. Dizer sim quando quero dizer não para não decepcionar, evitar conflito a qualquer custo nem que seja para meu prejuízo ou desvantagem, ou controlar cada detalhe do que possa acontecer, evitar que eu seja culpada por algo ter dado errado. Mesmo com estranhos e pessoas que não importam, ou nunca mais vou ver. 

Há uns 3 anos  numa viagem longa de avião, eu estava sentada no assento da janela, e acordei precisando ir ao banheiro depois de ter bebido muita água. A pessoa ao meu lado dormiu o voo inteiro, e eu não tive coragem de acordá-la e pedir passagem. Cheguei no destino passando mal, por não querer desagradar uma pessoa sem qualquer importância. Este dia virou uma chave em mim: eu percebi que minha tendência de agradar é fora do normal, eu parecia estar disposta a sofrer fisicamente ao invés de “desagradar” alguém com uma coisa tão boba. Como uma mulher na beira dos 40 vai ter medo de pedir passagem no avião para ir ao banheiro? Urgentemente isso precisava parar.

Talvez mais fácil com desconhecidos, não tão fácil no ambiente de trabalho, por exemplo. Essa tendência de sempre querer agradar aparece sempre, quando concordo com prazos impossíveis, e fico estressada para dar conta. Ou quando lido com colegas ou clientes difíceis, e me contorço de todas as formas para agradar alguém que talvez não possa ser agradada, ou que não faz um mínimo de esforço de ser agradável. Conflitos, pendências, desacordos, e desconfortos me são insuportáveis.

Percebo que com o tempo fui entendendo a origem desses medos, e construindo ferramentas para lidar. Uma delas exige muita coragem: fazer o que te dá mais medo. O familiar é sempre confortável, então tento me colocar de propósito em situações desconfortáveis, até que elas se tornem familiares. Quanto mais a gente evita desconfortos, mas a gente acredita que não vai mesmo suportar. Um ciclo onde o medo se auto alimenta e cresce sem controle. Para combatê-lo, precisamos mesmo olhar na cara do que nos deixa com medo e enfrentar, inevitável quando se espera expandir a vida. Hoje, mudar, por exemplo, se tornou familiar, e já faz vários anos que não consigo ficar muito tempo no mesmo lugar (Talvez o medo do não-familiar tenha dado espaço ao medo de não ter tempo de ver tudo e experimentar tudo que quero). Preciso ainda trabalhar dizer não, tomar espaço, colocar a culpa no outro, criar problemas, suportar o outro estar desconfortável sem que eu precise agir.

Em 8 de abril de 2024 parte dos Estados Unidos estava no caminho de um eclipse solar total. O caminho da totalidade passaria alguns estados ao norte, em Vermont. Eu venho há um tempo tendo muito interesse em coisas do céu e universo, e sou daquelas que tira foto de todo pôr do sol. A possibilidade de ver um eclipse total do sol era um sonho, e uma raridade. Eu já estava com planos de ir um ano antes do evento, olhando hotéis e caminhos. Mas acabei não reservando nada, com receio do dia estar chuvoso ou nublado (evitando riscos sempre...).

Na semana do eclipse foi confirmado que as cidades de Vermont que eu havia pesquisado teriam o céu aberto, perfeito pro evento. Mas o eclipse total duraria pouco mais de 2 minutos. O passeio envolvia dirigir 4 horas com trânsito até uma cidade no caminho da totalidade, esperar o eclipse, depois dirigir de volta 4 horas, ou mais, com previsão de muito trânsito. Não havia mais hotel disponível no caminho da totalidade. Por conta disso ninguém quis ir comigo. Era um passeio meio sem sentido. 

Mas para mim era um sonho! Então peguei meu medo de dirigir, e minha coragem, e fui sozinha. E foi tudo incrível e perfeito. Acordei com o nascer do sol, dirigi 4 horas pro norte, fui até uma cidade no caminho do eclipse, sentei num parque, com centenas de outras pessoas. O eclipse total durou 2 minutos, mas foi uma das coisas mais lindas que já vi. O dia virando noite, todo mundo celebrando ao meu redor, a lua escura com um anel cintilante, quase rosa, em volta. Cheguei a chorar. Por estar vivenciando aquele momento, e pela minha coragem de fazer uma mini loucura para mim, por mim. Logo sai, e peguei um super trânsito! Mas já havia reservado um hotel a 1 hora para que eu não dirigisse a noite, é só seguir para casa no dia seguinte. Quem voltou para Massachusetts ou outros estados no mesmo dia pegou horas e horas de trânsito. Foi um dos meus dias mais felizes e corajosos!

Assim como outros atos de muita coragem que já tive nesses 40 anos. Por exemplo, quando peguei o avião em 2011 para me mudar pros Estados Unidos. Confesso que fui fingindo coragem, mas fui. Exige muita coragem mudar de país, um recomeço, aprender como existir em outra cultura e lingua, sustentar essa escolha. Ou quando encaro de frente meus lutos e tristezas. Infelizmente é comum as pessoas viverem em prol de negar nossa finitude, de se ocupar o tempo todo por não conseguirem ficar sozinhas com seus próprios pensamentos e fantasmas. Eu sempre, mesmo jovem, encarei de frente melancolias e tristezas, e quando precisei me recompor de perdas gigantes, não tive medo nenhum de me afundar nelas. Me afundo até hoje. Já são muito familiares.

Chego aqui nos 40, ainda como uma menina, aprendendo que muito do meu medo infantil se transformou, e é na verdade um maravilhamento e espanto com o mundo, minha palavra favorita em inglês, awe. Aquela sensação de contemplar algo grandioso e imenso, como o céu estrelado, ou o topo de uma montanha, quando somos tão pequenos. E que minha ansiedade anda de mãos dadas com uma vontade e esperança de viver intensamente. No corpo, o sentimento é tão parecido! Coração acelerado, respiração rápida. Como andar de montanha russa, gritando, apavorada, com um nó no estômago, e o vento no rosto, e no final uma sensação incrível de vida vivida. 

Chego aqui nos 40 também cheia de ambiguidades. A menina que agradava, quietinha para não dar trabalho, convive aqui dentro com uma pessoa resolvida, que se conhece muito bem, entende os próprios sentimentos. Uma parte minha adora rotina e ficar em casa, e acha loucura todas as minhas mudanças, e outra, que quer explorar e conhecer tudo. Uma parte mais madura e segura, que faz o que quer, coexistindo com meu lado mais infantil e medroso, controlado pelos outros. Existem partes conflitantes que coexistem, assim como parte grande da coragem é ter muito medo: exige muita coragem para fazer tudo com medo. E eu quase sempre estou assim, vivendo e explorando, com medo. 

No mês que faço 40 encaro uma aventura, encaixoto a vida, e saio de carro, eu, marido e cachorro, atravessar esse país todinho, e ir explorar outro lugar, completamente novo. Ir com medo e coragem, mas ir. Começo esta nova década com muita vontade de me jogar no não familiar, sem tentar controlar todos os riscos, mas ocupando espaços, falando alto, sem pedir licença para estar no mundo. Não negando o medo, que me protege, mas de mãos dadas minha coragem, que me completa. Quero me sentir segura, mas preciso com urgência me sentir viva. 


“Hoje eu acordei com medo, mas não chorei nem reclamei abrigo

Do escuro, eu via um infinito sem presente, passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo, era uma coisa sua que ficou em mim que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa

Morna e ingênua que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado

Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás”

Cazuza

 

                                                    Cruzeiro, Brasil, 1989, 3 anos

sexta-feira, 5 de junho de 2026

1. Rotas

Deixe-me ir, preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar Quero assistir ao Sol nascer Ver as águas dos rios correr Ouvir os pássaros cantar Eu quero nascer Quero viver Se alguém por mim perguntar Diga que eu só vou voltar Depois que me encontrar

(Candeia)  


Faz dois anos que penso neste dia obsessivamente. Talvez tenha pensado neste dia minha vida toda. Porque na minha ingenuidade infantil "quando eu for mais velha" sempre foi este dia, 5 de junho de 2026, o dia que faço 40 anos. Engraçado pensar que quando eu tinha lá meus 12 anos, eu pensava muito no futuro, mas eu nunca imaginei que o futuro seria assim, como minha vida aconteceu. Talvez seja assim com todo mundo, a vida acontece cheia de surpresas.

A gente cresce achando que existe uma forma certa de organizar a vida, uma progressão linear. Faculdade, casamento, filhos, ajudar os filhos com suas próprias progressões lineares, cuidar dos pais idosos, se despedir dos pais, chegar você na velhice, com seus filhos e netos. O ciclo natural da vida, tudo seguindo um caminho pré-traçado. Eu chego aqui nos 40 com uma vida bem fora disso tudo, me sentindo tão menina,  meio perdida, mas com uma sensação que existem todas as possibilidades do mundo pela frente.

Nunca imaginei que faria 40 anos assim, empacotando a vida, prestes a colocar tudo num container, atravessando um país que nem é meu, mas onde moro há mais de uma década, em busca de novas experiências. Meio sem raízes, meio solta no mundo. Quem me conheceu adolescente nunca teria imaginado, porque fui uma criança e adolescente tímida, bem comportada, responsável, nada aventureira. Nerd, CDF, religiosa. Aquela adolescente que os pais dos amigos confiavam, e se eu estivesse no grupo, eles permitiam o que quer que fosse, porque eu com certeza não me comportaria mal. Meio medrosa, controlava como me comportava, botava muito peso na opinião do outro. 

E décadas depois, cá estou. Imigrante, vivendo em outra língua, órfã, sem filhos por escolha, meio nômade, desapegada, sem crenças formais, em uma carreira diferente do que estudei. Talvez aquém do meu potencial acadêmico, ou o que esperavam de mim. Acho que por um tempo eu entrei sim no caminho já traçado de vida e sucesso padrão: sai do interior de onde nasci e cresci para morar na cidade gigante e estudar na melhor universidade do país. A poucos anos talvez de me casar, ter filhos. Até que dois eventos me tiraram deste caminho, entre meus 22 e 23 anos: um drama de chorar por horas e um romance clássico de cinema. Me fizeram virar esquinas sem retorno. Sai de vez da progressão linear.  Entrei em outra rota, que não estava no mapa, sem caminho pré-traçado.

Em 2008 eu estava no quarto ano de faculdade. A vida estava indo bem, eu cheia de sonhos, a vida se abrindo na minha frente, com tantas possibilidades. E minha mãe ficou doente, de repente. Ela começou a passar mal em Abril, e em Maio foi diagnosticada com um câncer já sem chances de cura. De um dia para o outro fomos completamente tomados pela notícia avassaladora que ela não estaria com a gente por muito tempo. Um pesadelo. Ela viveu 81 dias entre o diagnóstico e a partida. Hoje, quase 18 anos depois, existem tantas cenas daqueles dias que aparecem ainda de repente na minha memória, e são mesmo como um filme muito triste, envolto em desespero e desamparo. 

Eu nunca fui a mesma. A morte da minha mãe foi a primeira grande tragédia que vivi por dentro, de dentro, e não consegui seguir do mesmo jeito. Me quebrou, e precisei reconstruir uma outra forma de viver. Deixei uma parte muito grande de mim ali com ela, com minhas certezas, minha fé, e uma completude que nunca mais senti. Passei meses sem conseguir ter agenda, sem organizar nada, sem conseguir dormir no silêncio. Comecei a carregar comigo mais medos, mais ansiedades, uma desconexão com os outros. Mas também uma percepção dos detalhes e beleza das coisas, do valor dos dias simples, que só quem perdeu a pessoa que mais amava no mundo pode entender. O medo e a beleza lado a lado, pela total consciência que a finitude está logo ali. 

Poucos meses depois da morte da minha mãe, apareceu uma oportunidade de concorrer a um programa de bolsa de intercâmbio, o que sempre tinha sido meu sonho. Exatamente um ano depois da morte da minha mãe, agosto de 2009, sai pela primeira vez do Brasil, embarquei pra Holanda, para estudar um semestre da faculdade na Universidade de Leiden. 

E ali virei outra esquina: desta vez cheia de sonhos, e aventuras. Em poucos meses o mundo se abriu de uma forma dramática e intensa, conheci gente de vários países. Entendi como existem tantas formas diferentes de existir no mundo, mas ao mesmo tempo, como é incrível encontrar pessoas parecidos com você que cresceram do outro lado do planeta. Me entendi mais como parte de um mundo tão maior! Me conectei com meu país de outra forma, porque nada te faz mais brasileira que morar fora. Você se reconhece muito mais na comparação com o outro, e na forma como os outros te veem. Aqueles seis meses foram os mais alegres e festeiros da minha vida. Deixei a menina cdf e responsável descansar, estudei pouco, saí quase todas as noites, socializei mais que em qualquer outro período da vida. Viajei pela Europa. Aquele semestre me salvou de várias formas.

E entrei num filme de romance. Um dos amigos que fiz era um americano porto riquenho, inteligente, e charmoso. Me mostrou tanto de arte e culturas. E nos apaixonamos. Daqueles romances mesmo de filme, que quase acabou em muitas lágrimas no aeroporto se despedindo do romance de intercâmbio. Mas levamos pra vida. Ele primeiro morou uns meses no Brasil, depois nos mudamos pros EUA, onde moro há 15 anos.

As rotas e mudanças tem um tanto de acaso, sorte e azar. Mas também escolhas conscientes. Minha escolha de transferir a vida para outro país foi meu maior ato de coragem até agora. Quando lembro dos medos que eu tinha com 18 anos ao sair do interior e ir pra São Paulo, percebo que aos poucos fui me aventurando, indo mais longe, sempre ainda com muito medo e cautela. Mas indo.

Eu já estava nos EUA por um ano quando meu pai também ficou doente, também com câncer, também já sem chances de cura. E continuei meu processo de luto que começou com o trauma da morte da minha mãe, e continuou agora com a morte do meu pai, como se eu tivesse seis anos depois só vivendo a continuação da mesma história. Mas desta vez eu já estava calejada, já com feridas abertas. Eu já sabia sofrer daquela forma. Eu já sabia que sobrevivia.

A morte do meu pai acabou de levar o que eu tinha de casa, literalmente. Desfiz de tudo da nossa casa, casa construída por eles. Cada canto pensado, planejado, orçado, para ser espaço de uma vida segura e feliz. Com meu pai foi embora minha ultima fonte de amor incondicional. 

Com 27 anos eu já não tinha meus pais. E tem muitas solidões nesta realidade. A solidão de não ter pra onde ir. A solidão de não ter mais quem eu era com eles. De não ter o olhar que eles tinham pra mim, com muito orgulho e admiração. Também a solidão de não conhecer ninguém que tenha chegado aos 27 sem os pais, com exceção do meu irmão, que divide esses lutos comigo, e se tornou meu porto seguro. Não estou dizendo que é a pior coisa que alguém possa passar, não é. Mas ter que cuidar dos pais no final da vida, enterrá-los, fechar a casa, não é coisa que a gente espera viver nos 20 anos. Era pra ser muito e muito depois, quando eu já estivesse muito mais velha. A vida quebrou um acordo que eu achei que existia de que as coisas seguiam uma ordem. Hoje com 40 anos já não tenho meus pais vivos há mais de uma década, e ainda sinto muito ter essa vida sem colo. Esses lutos são partes estruturais de quem eu sou, pois com eles precisei me reconstruir.

Para além de viver a vida sem eles, eu também sinto muito pela vida que eles não tiveram. Meus pais nasceram, viveram, e morreram num raio de poucos quilômetros de distância. Meu pai fez faculdade, casou, construiu casa, trabalhou muito (manhã, tarde e noite por muitos anos), viajou pouco (embora adorasse!), morreu poucos anos depois de se aposentar. Minha mãe não teve nenhuma chance na vida de estudar, perdeu a mãe ainda criança, trabalhou em casa de família pré adolescente, casou, construiu casa, cuidou dos filhos, cozinha e limpava a casa todo dia, conheceu pouquíssimos lugares, morreu com 46 anos. 

Eu acredito que meus pais foram de certa forma felizes. Eles tinham uma comunidade, a família presente, amavam a família. Mas percebo que as perdas e mudanças me levaram a evitar repetir a vida deles, e a procurar viver tudo que eles não viveram. Fui criar uma vida tão longe de onde nasci, já conheci tantos outros países, já me mudei para diferentes estados dentro dos EUA. Não consigo ficar no mesmo lugar mais que alguns poucos anos.  

Para além dos meus pais, vivo uma vida muito diferente de todas as mulheres que vieram antes de mim, algo que é bem comum na minha geração, ainda bem. Minha bisavó Rosa teve mais de 10 filhos. Minhas avós e mãe cresceram, nasceram, e morreram na mesma região, do nascimento a morte não tinha mais de 100 km. Todas boas cozinheiras, casas limpíssimas, cuidadoras. Cuidaram dos filhos tão bem. Também cuidaram dos irmãos, e sobrinhos, e largavam tudo para resolver problemas para os outros. Faziam tudo para os maridos. Nenhuma se divorciou. Minha avó materna morreu antes dos 40. Minha mãe, nos 40. Eu venho de uma linhagem materna de mulheres que morreram antes dos 50, e viveram para os outros. Viveram pouco.

Não estou aqui dizendo que uma vida é pior ou melhor que a outra, ou que sou mais feliz que elas foram. Talvez até exista mais sentido em viver em famílias maiores, em se doar, da forma que fizeram. Difícil dizer. Mas tenho o super privilégio de poder perguntar e responder: o que eu quero da minha vida? Escolhi seguir o oposto de todas elas. Viver mais e para mim. Estudei, tive acesso a universidades importantes, trabalho, não tive filhos por escolha, emigrei, moro há milhares de quilômetros de onde nasci. Eu brinco de lego, e colorir, e coleciono pelúcias. Tenho tempo de ler, ir à academia, dormir até tarde. Tempo de parar, refletir e escrever, meu hobby favorito. Já conheci mais de 15 países. Já morei em 3 países. Já morei em São Paulo, Nova York, Boston, zona rural de Connecticut, uma cidadezinha na Holanda, no Texas. Estou aqui a poucos dias de me mudar para a Califórnia. Cozinho mal pra caramba (não tenho orgulho disso!). Meu marido lava a própria roupa, organiza o que comprar no supermercado, e pilota a cozinha. Com relação a longevidade, não há muito que eu possa fazer, isso fica mais a cargo da sorte e azar. Mas faço o que está ao meu alcance pela saúde e segurança. 

Escolhas. Versões de vida. Caminhos que são fechados quando a gente decide virar uma esquina. A gente nunca vai saber o que seria atrás de outras esquinas. Todas as nossas possíveis versões tem partes tristes e felizes, mas às vezes caímos numa armadilha de pensar que uma outra versão nossa seria mais feliz.  Como seria minha vida se eu nunca tivesse saído do Brasil? Se minha mãe fosse viva? Se eu tivesse estudado outro curso? Se eu tivesse escolhido ter filhos? Contrafactual. Nunca saberemos. 

Eu venho aprendendo que é uma tarefa essencial, com a passagem do tempo, que a gente faça as pazes entre o idealizado e o vivido, com tudo o que você não se tornou, e com todas as portas do passado que você fechou, ou que fecharam para você. É muito fácil olhar para trás e identificar com facilidade que caminhos tortos foram tomados quando não devíamos. Ou pensar que uma outra versão da vida seria muito melhor. Mas a nossa visão de hoje é tão mais potente! Nos perdoar faz parte desta caminhada, assim como sentir falta do que não aconteceu é normal, e aceitar que todas as escolhas fecharam outros caminhos, e que sempre há renúncias.

Também aceitar que coisas acontecem com a gente, fora do nosso controle. A vida adulta até aqui foi muito confusa. Passei meus 20s lidando com lutos e sobrevivendo. Nos 30s, me recompondo, aprendendo mais a ser eu no mundo, o que eu gosto, o que quero ser, não com a régua dos outros, mas com a minha. Uma década cheia de decisões, instabilidade, aprendizados. Teve a pandemia no meio. Estou sempre me perguntando o que quero, como quero a vida. Retraçando a rota quando necessário. Entendo que existem tantas formas de retorno e re-traçar rotas. Tenho uma vida sem muitas amarras que dificultariam não mudar se não estivesse bem. Parece que posso escolher qualquer caminho ou lugar, a qualquer momento. E tem dias que isso me traz muita satisfação! E tem dias que isso me enlouquece. Muita liberdade pode ser cansativo. Seguir o caminho traçado faz parecer que é o caminho certo. Seguir caminho não traçado faz você parar de tempos em tempos e se perguntar se está perdido. 

Tenho aprendido que não estou perdida, porque este conceito não existe. Não existe caminho, quem o cria é você. Estou experienciando a vida, com suas paletas, tons, e emoções. Sinto que aqui nos 40 existe uma leveza na certeza que, embora seja importante sustentar nossas escolhas, a gente sobrevive às consequências e aos acasos, a gente tem segundas e terceiras chances, retraçar a rota é sempre uma vitória, e quase nada é definitivo. Acredito que ainda terei outras diferentes versões, em diferentes cenários. Mas é sim impossível viver todas as vidas possíveis. Então precisamos escolher. 

Eu nunca vou saber o que é ter pais velhinhos. Não vou saber como é gerar uma vida. Nem como é ser boa cozinheira. Assim como outras pessoas não vão saber como é morar em outro país, ou ter 13 graus de miopia, ou ter 40 anos sem ser mãe e sem ter mãe. Existe espaço para várias formas de experienciar ser gente, e estar no mundo. Ainda bem. 

Talvez uma das decisões mais importantes na minha vida tenha sido a de não ter filhos. Uma decisão muito pensada, mas também difícil, porque vai contra o biológico e o cultural. Nossa sociedade se organiza em famílias, e ter filhos, criar novos humanos, é uma parte tão importante da vida. Eu esperei chegar o momento em que me desse vontade de ser mãe, mas embora eu adore crianças, brincar, ver como elas descobrem o mundo, a vontade não veio. Entre os 35 e 37 parei mesmo para pensar, por estar chegando no limite biológico. Eu consigo listar 50 razões pelas quais decidi não ter filhos, algumas mais bobas, e outras mais importantes. Mas consigo também ver que uma versão alternativa da minha vida se sentiria muito mais confortável para ter filhos. Mas esta minha versão, sem mãe, imigrante, cheia de preocupações e alguns traumas, não conseguiu. E isso vem de um lugar de respeito gigantesco com a maternidade. Acho tão intenso, que não acredito que daria conta. Talvez no fim não fui mãe por muitos e muitos medos. 

Sei que é comum perguntarem: “e se você se arrepender”? Posso dizer com 100% de certeza: irei me arrepender, lá pelos menos 60 e poucos. Mas lá, se eu chegar, eu lido com essa escolha da maneira que for. Talvez a idade biológica não bateu com a idade de me sentir preparada e bem pra ser mãe. Talvez a vontade venha nos 50, quando for tarde para ser mãe biológica, mas possível de outras formas. Talvez porque precisei lidar com tanto nos 20, ou por ter mudado de país e recomeçado algumas vezes, me sinto muito jovem para ser mãe. Com 40 anos, vai entender! Perdi o sinal do tempo.

Este é um outro ponto engraçado. Nunca imaginei que chegar aos 40 seria sentido como tão jovem. Sei que não sou a única, é coisa da nossa geração millenium. Por mais que eu seja uma adulta, com trabalho, profissional, responsável, pague minhas contas, dou conta do mundo, tenho minha própria casa, ainda me sinto uma menina, perdida no shopping, com um medo danado de estranhos, e procurando desesperadamente pela minha mãe. Mesmo que eu tenha vivido tantos momentos de coragens intensas, onde mergulhei em dores emocionais de cabeça ou me joguei pro mundo, morando tão longe de casa. Ainda uma menina.

E esta é a minha maior confusão com essa idade: o tempo! Ontem eu estava lá com 17 anos em Cruzeiro, pisquei, e cá estou com 40. Aconteceram muitas vidas nestes anos todos, mas ao mesmo tempo parece que passou mais rápido que dei conta de entender. Estou abismada e admirada, tentando entender a passagem do tempo. Estaria mentindo se dissesse que não me incomoda o passar do tempo. Se olhar no espelho, ver mais rugas, cabelos brancos. Esta sensação que os últimos 20 anos passaram muito mais rápido que dei conta de aproveitar. Chegar aos 40 tem sim um peso simbólico. 

E existe também um jogo grande com as perdas. Colágeno, energia, oportunidades, pessoas. Os anos no futuro diminuem a cada dia. Parece que nossa vez passa pra dar caminho pra quem vêm. Existem também muitos ganhos, sendo a experiência a maior delas. Ver com mais claridade a vida acontecendo. Tantas rotas no passado, fica mais fácil identificar quais caminhos seguir. 

Espero que nos 40 eu encontre mais da minha versão corajosa, sem medo de desagradar, sem medo do ridículo, que vive mais no mundo do que na minha cabeça. Que sente mais do que pensa. Que aceita sentir mais  raiva e alegria, sem culpa. Que tem o trabalho como uma pequena parte da vida, e que não seja tão dura consigo mesma. Que briga mais com sua tendência de viver na rotina e conforto, e troque isso pela vontade avassaladora de viver. Intensamente, mesmo nos segundos mais simples e banais. Por mim, por meus pais, e por todos que vieram antes de mim. Essa linha acaba em mim, preciso viver por todos.

Desejo isso a todos os mesmos amigos e familiares, em qualquer idade, 20, 40, 60, 90. Seja numa vida mais linear ou bagunçada. Abrir espaço para o novo sempre. Novos hobbies, novos aprendizados. Novas formas de rotina e ser no mundo. Lugares novos. Pessoas novas. Independente de suas escolhas e rotas, abrir espaço e ir atrás de experiências com intenção. A vida passa mas continua crescendo e se expandindo. Lute veementemente contra a ideia que o melhor da vida já passou. Os bons tempos são sempre agora. E ainda há muitas outras esquinas aí pela frente. Não tenha medo de errar. 


You, music of my late years, I am called By a sound and a color which are more and more perfect. Do not die out, fire. Enter my dreams, love. Be young forever, seasons of the earth.

(Czaslaw Milosz) 

 

Arizona, EUA, 2018, 32 anos

40 anos: Introdução

     Vivo muito no meu mundo interno, tentando dar sentido e explicação pra tudo de mim, em mim, ao redor. E lido com isso escrevendo, um hobby que amo e me faz tão bem. Faz um tempo que venho escrevendo esses textos, afetada por uma introspecção intensificada por vários fatores, entre eles, o passar do tempo: chegar aos 40 anos. O que muda em mim, como cheguei aqui, o que me trouxe aqui. Esses textos foram organizados em 7 capítulos, quase como um livro informal. Tão pessoal e sincero, quase um resumo de anos de terapia. Uma forma de dar sentido, olhar para trás para ligar os pontos, e colocar intenções de como espero que o que me trouxe até aqui me leve até meus últimos dias, sejam eles daqui muitas décadas ou não. 

    Vou publicando aos poucos nos próximos meses. Os links estão na direita. Obrigada por ler!


sexta-feira, 4 de abril de 2025

As meninas com olhos profundos

Menina de cabelo liso e preto
Olhos profundos 
Cresceu desolada
Sem ser cuidada, sem ser vista
Quase esquecida
Criança sem mãe, tragédia
Cresceu e virou mãe

A filha
Menina de cabelo caracol e amarelo
Olhos profundos 
Cuidada, amada
Viu sua mãe triste
Tristeza é contagiante
Aprendeu a ter medo do mundo
A mãe precisou ir
Virou adulta sem mãe
Não deu conta de ser mãe

Todo dia converso com elas
Meninas de olhos profundos
Escuto e falo
E ganho muita coragem e força
Aprendo com elas e por elas 
Vivo por todos seus sonhos
Por tudo que elas não viveram

Estou com elas quando estou em meio as árvores
E montanhas e pássaros e rios
E céu estrelado
E cachorros saltitantes 
E livros sobre saúde e bem estar
E olhando no espelho prevenindo rugas 
E indo dormir com a melhor sensação do dia 

Todo dia quero ser mais feliz por elas
Desfazendo nossos traumas 
Descartando a necessidade de controle de tudo
Parando de regular o mundo pros outros 
Abrindo espaço pra me divertir
Conhecendo o mundo
Lendo todos os livros 
Ignorando preocupação com dinheiro
Desconsiderando a opinião do outro 
Derrubando todo esse peso que seguro
Escolho deixar a bandeja que eu tento equilibrar pelo vida cair
Tudo vai ao chão
E eu, com as mãos livres, sigo
Ao som da música ao fundo
Seja em acordes feliz e brilhantes
Ou melancólicos e calmos
Saio por ai, saltitante e feliz
E todo mundo me olha
E não ligo, sorrio de volta
E neste momento abraço essas meninas dentro de mim
Elas precisam ser cuidadas
Precisam também se divertir 
Eu criança medrosa e minha mãe preocupada
Crianças tristes
Pequenas no mundo
Que se escondem num canto pra serem invisíveis
Pra não atrapalharem ninguém
Não tomam espaço
Pra manter a paz pros outros
Meninas com olhos profundos e sorriso tímido
Tudo ficará bem
E mesmo que não fique
E vou cuidar só delas
E vou viver a vida por elas
Cheia de coragem
Alegria
Gargalhadas altas 
Tomando espaço
Deixando pra trás
Todos os medos que tiveram 
Todos os silêncios que obedeceram
Todas as listas que criaram
Todas as regras sem sentido que seguiram
Desapegada da vida
Deixar as pessoas serem o que são
Deixar as pessoas pensaram o que quiserem
Deixar as pessoas carregarem suas próprias dores 
Deixar as pessoas darem conta sozinhas
Deixar as pessoas irem embora
Ir embora
Ser autêntica
Errar
Leveza
Vida longa
Envelhecer
Olhos rasos
Sorriso largo


*Pra minha mãe que hoje faria 63 anos 

sábado, 1 de junho de 2024

Era uma casa

(de alguns dias atrás)

Eu me vi por gente lá na rua dos Palmares.
Falei, andei, ganhei irmão, ganhei a Susi.
Brinquei muito sozinha, meu irmão ainda bebê.
Uma vez briguei com uma vizinha, levei um soco.
Outra vez andei de bicicleta na rua, e perdi meu ursinho Pooh, que tinha colocado na cestinha.
Um dia meu avô caiu do telhado.
Veio ambulância, um caos.
Quebrou costelas. Ficou bem.
Comecei a usar óculos.
Vivi no maior quintal da minha vida.
Quando criança tudo é tão gigante.

Com sete anos nos mudamos.
Nova rua, com nome de homem.
Perto do bosque.
Lembro na primeira semana em que tudo era tão estranho.
Eu olhei pelo portão e pensei como seria a vida ali.
Foi uma vida toda.

E essa foi a casa em que virei eu.
Esta casa viu todas as minhas versões.
Criança, adolescente, adulta.
Universitária, imigrante.
Filha, orfã.

Foi uma casa em construção.
Nos mudamos tinha só um quarto.
Depois o quarto virou sala de tv, e ganhamos mais um quarto, e outro, e outro.

Meu quarto tinha uma parede de madeira e outra pintada de rosa.
Armário com espelho.
Ouviu muito Legião, Capital, Bon Jovi.
Madrugadas na internet gratuita.
Icq, msn.
Amigas dormindo.
Festas de aniversário.
Quando vi que passei na USP.
Quando vi que passei em Harvard.

Sai dessa casa pra fazer faculdade.
Mas voltava de duas em duas semanas.
Todas as férias.
Depois ainda morei de novo nuns intervalos da vida.

Esta casa tem pouco mais de 30 anos.
Por 14 foi a casa da minha mãe.
Por 20 do meu pai.
E tantos cachorros.
E tantos momentos felizes de conversar na beira da pia, na escada da porta da cozinha.
Uma casa sempre barulhenta.
Latidos.
Rádio da minha mãe.
Tv alta do meu pai.
Almoço sendo feito.
Visitas de família.

Sempre com jardim
Coqueiro
Janelas abertas

Um dia a gente saiu dela de carro com minha mãe e ela nunca mais voltou. 
A gente não sabia. 
Foi o maior trauma da minha vida.
Um outro dia sai de carro com meu pai, e ele nunca mais voltou. 
Eu já sabia. 
E então fiz uma das coisas mais difíceis: esvaziar esta casa. 
Guardar poucas coisas em caixas.
Desfazer de todo o resto. 

Viver sem ter a casa dos pais
É um viver sem porto mesmo.
Navegar sem ter pra onde voltar.
Da uma angústia do caramba.
É um tipo existencial de solidão.

A casa dos meus pais já não existe há 10 anos.
Mas hoje oficialmente a casa física sai das nossas vidas.
E sempre há um tanto de tristeza em deixar as coisas irem embora. 

Obrigada pai e mãe por construírem nossa casa.
Por terem criado um lar e família que só me trazem lembranças boas, de cuidado e atenção.
Obrigada casa por ter cumprido seu papel
De ser a casa dos meus pais.










sábado, 24 de fevereiro de 2024

A morte de um quase desconhecido

O cliente é uma empresa do terceiro setor.
No começo da semana tiveram um problema
Daqueles bem grandes.
Não causado por nós, mas que afetou o trabalho.
Nosso principal contato estava de férias.
Iria voltar depois de uma semana.
Pensei na dor de cabeça que ele teria
Voltar de férias e dar de cara com esse problemão.

O problema estava lá por dois dias
Quando recebemos a notícia.
O contato não voltaria de férias.
Inesperadamente, morreu, durante a viagem.

Duas semanas antes ele fechou o computador
Deixou as coisas meio bagunçadas na mesa
Deixou emails pra responder quando voltasse
Deixou decisões pra tomar quando voltasse
Não voltou.

E essa morte me atravessou de maneira tão profunda
Não por ser meu amigo, ou família.
Não era nem colega de trabalho.
Era uma pessoa que eu via pelo zoom por 30 minutos uma vez por semana.
Que pedia serviços, e a gente respondia.
Que elogiou meu trabalho algumas vezes.
Que sempre se mostrava empolgado por qualquer ideia legal.
Tudo era possibilidade
Apaixonado pela missão da empresa:
Ajudar pessoas que estão recomeçando a vida.

Mas pra além disso tudo.
Agora depois de já ter deixado esse mundo
Fui saber que por trás do cliente
Por trás da pessoa extremamente profissional e simpática 
Havia um homem casado há uma década com um imigrante.
Dois homens que se amavam.
Cheios de amigos
Conhecidos por suas alegrias e sorrisos fáceis.
Que viajaram o mundo juntos.
Que compraram uma casa recentemente.
Que viviam a vida intensamente.

Com que troquei apenas palavras sobre trabalho
Mas poderíamos ter falado de tanto mais.

Me atravessou essa morte de maneira profunda
Por me lembrar de como a morte
Não considera nossos planos e pendências.
E também por me mostrar o tanto que não conheci dessa pessoa que cruzou meu caminho casualmente.
E de como todos nós somos tão cheios de histórias.
E que desperdício é não conhecer profundamente todas as pessoas que cruzam nosso caminho.




quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A Meia Volta de Halley

Cheguei junto com o Halley, em 1986. Ele passou, deu oi, e seguiu seu caminho, foi lá pras bandas de Netuno, como vem fazendo a centenas de milhares de anos. Já viu de tudo neste mundo. 

Desde sua última visita, foram quase 38 voltas da Terra no Sol. Tanto mudou neste planeta: novas gerações, avanços e retrocessos. Tinha Queen, minha mãe, walkmans, muro de Berlin. Não tinha rede social, Bitcoin, Tiago, Netflix. Mas fora daqui, o universo continuou quase o mesmo. As luas, planetas, constelações, seguindo na mesma cadência com suas danças coreografadas, de órbitas e gravidades, de uma imensidão que não cabe no nosso entendimento. Na linguagem do universo, 38 anos foi apenas um suspiro. Já no meu universo particular, foi de nada a tudo, meu próprio big bang: 38 anos é uma vida todinha! 

Essa semana Halley deu meia volta, começou sua viagem de volta a Terra. Daqui 38 anos, em 2061, ele chega. Nem sou nada neste universo de tamanhos inconcebíveis, mas prometo, senhor Cometinha, que vou marcar na agenda, e se o mundo ainda for mundo, e eu ainda for gente, na data da sua visita, 28 de julho de 2061, vou ser uma senhorinha com a mesma idade que sua órbita, e vou ter vivido a vida que eu escolhi, ainda assim aceitando todas as peripécias do acaso. Ido atrás de todas as possibilidades de felicidades. Sentido todos os sentimentos que passam por mim, sem julgar nenhum. Ficado feliz com cada por do sol, e cada manhã cheia de vida. E chorado sem culpa nenhuma nos dias de chuva. Aproveitado a vida, não com dias cheios de novidades, mas sim com contentamento nos detalhes cheios de beleza.

Prometo mesmo que vou ser feliz sendo quem sou, com uma vida medida por minha própria régua. Não a dos outros. Feliz com o que me faz feliz, uma vida simples, de calmarias diárias, mas com curtas saídas do trilho pra sentir o coração mais forte. Prometo mesmo, senhor Halley, confiar em mim, andar pelo mundo, assim como você, sem pedir desculpas e sem medo de ocupar espaços. Com mais coragem. Leveza e profundidade ao andar pelo mundo e escutar o outro.

No fundo, senhor Halley, pra ser mesmo bem sincera, acho que comigo vai estar tudo bem: tenho tendências fortes a aceitação. Fico mais preocupada mesmo é com todo o resto: 38 anos é tempo o suficiente pra tudo desandar, e você enfim se assustar ao não encontrar mais o que sempre fomos. Destruídos por nós mesmos. 

E não importa. Seja como for. Daqui 38 anos você dará meia volta de novo, seguirá seu rumo de volta pras bandas de Netuno. E todo o resto continuará, as luas, planetas, constelações, seguindo na mesma cadência com suas danças coreografadas, de órbitas e gravidades, de uma imensidão que não cabe no nosso entendimento.


(Meu quintal, árvores no inverno, Orion, e mais bilhões de outras coisas - 13 Dez 2023)





domingo, 10 de dezembro de 2023

Sobre o livro Bittersweet (de Susan Cain)

(Dezembro 2022)

Você ja leu um texto, ou ouviu uma música, e foi tomado por um sentimento enorme de completude, misturado com melancolia, com um pouco de tristeza e alegria ao mesmo tempo? Talvez você não só tenha tido esse sentimento, como também o procura com frequência, seja no tipo de filme que gosta, ou nas músicas que tocam sem parar em seu Spotify. Susan Cain escreve sobre esse sentimento em seu novo livro "Bittersweet - how sorrow and longing make us whole". Não sei como o nome do livro será no Brasil, mas a versão em Portugal ganhou uma terceira palavra em seu subtítulo: saudade ("...como o pesar, a nostalgia e a saudade nos tornam completos"). Me identifiquei muito com a idéia do livro e gostaria de compartilhar aqui.

O sentimento de Bittersweet (em português, "Agridoce") apresenta uma dicotomia bem conhecida: é doce e amargo ao mesmo tempo. Susan Cain resume esse sentimento como a "tendência ao estado de nostalgia, comoção, e pesar; uma consciência gritante do passar do tempo; uma alegria curiosamente dilacerante da beleza do mundo". Algumas pessoas tem uma personalidade "bittersweet", com tendência de sentir um combo de sensações em um momento específico: sentir o coração expandir, um estado de transcendência, de sentir a eternidade, em que o "eu" se diluiu e você se conecta com o todo. Susan Cain de novo (ela é autora do livro mais famoso sobre introversão, "Quiet") nos ajuda a perceber que ser mais melancólico não é um defeito, embora nossa sociedade pregue tanto a necessidade de sempre estar e demonstrar sentimentos positivos. Existe ainda pontos a serem celebrados nessa melancolia, e ela coloca muito foco em um deles, a criatividade.

Cain afirma que esse sentimento está ligado com a procura por "um mundo perfeito", a fonte inicial de toda nostalgia, de retorno para a casa, "a fonte secreta de qualquer foto da lua, obras de arte, e histórias de amor". Ela afirma que não devemos confundir este sentimento com a depressão, que é sim uma doença mental que exige tratamento. Percebo assim: no estado depressivo talvez falte sentido; num sentimento de melancolia como descrito por Cain, existe muito sentido! "Apesar de tudo", qualquer dor, morte, ruptura, crise, esse sentimento de "bittersweet" nos permite ver o mundo como sagrado, misterioso, encantado, a dor nos permite ver como parte da humanidade. Mas nada disso deve ser visto como negação dos momentos difíceis da vida, pelo contrário: se passa pela dor sentindo a dor, em sua profundidade, não evitando, e sim transformado a dor em algo novo, criação, como arte, música, escrita, meditação, reza.

O livro me fez dar palavras para um sentimento que eu sinto e sempre me intrigou: depois da morte da minha mãe, minha primeira grande e dilacerante dor, eu vi mais sentido na vida, consigo ver mais detalhes nas coisas, mais beleza. Vendo fotos, escrevendo sobre meus pais, lendo, ouvindo músicas, as vezes sou tomada por um sentimento que me transborda, sorrio, choro, sinto uma saudade profunda, nunca desespero. Um sentimento de completude, de espanto de como é possível caber em mim um vazio tão preenchido. Morte, vida, amargo, doce.

Esse sentimento pode aparecer não apenas em momentos de dor, mas também alegria. Sabe quando a gente chora de felicidade? Sabe quando a gente está no carro, saindo de férias com a familia, e todo mundo esta rindo, e de repente você sente uma pontada gigante de alegria, e ao mesmo tempo de tristeza, e uma lágrima escorre, porque aquele momento é tão simples, único e belo, e você toma consciência ali, naquele segundo, da passagem do tempo, da finitude de tudo, e sabe que aquele momento vai passar? É esse mesmo sentido - a consciência tão clara da beleza do mundo, e da passagem do tempo, e de como tudo que a gente ama vai um dia embora, mas que mesmo assim, apesar disso, tudo é belo. 


Depois de aprender mais sobre a introversão (graças à mesma autora, Susain Cain!) vejo momentos de solitude como essenciais para meu bem estar. Mas sempre pensei nesses momentos como formas de pensar e entender, processar meu dia a dia, momentos de introspecção. Mas venho percebendo nesses últimos anos que estes momentos podem por vezes me levar a "pensar demais", as vezes ficando presa num ciclo sem parar de pensamentos e ruminação (a tal ansiedade). Tenho concluído que ficar muito focada no que há dentro de si pode ás vezes contribuir com a ansiedade. Ao ler este livro eu percebi que talvez não seja apenas os momentos de solitude que sejam essenciais, mas também os momentos de "bittersweet", melancolia, momentos de transcendência. Não apenas momentos para processar e introspecção, mas também de me sentir completa, vulnerável, de sentir todas as dores do mundo, sem precisar entender, ou controlar, ou nomear, de deixar o coração transbordar, de me conectar com algo maior, com o mundo todo, o universo todo, ouvindo música, escrevendo, lendo, fazendo trilha, subindo uma montanha, assistindo o por do sol, olhando as estrelas, fazendo yoga, brincando com meu cachorro.

Não tanto por coincidência, o mesmo tema apareceu, embora de forma diferente, em um outro livro que li recentemente chamado "Chatter", sobre como a voz que não para de falar dentro da gente pode ser ensurdecedora, e como é necessário as vezes silencia-la. Os dois livros me levaram pra mesma direção: me conectar com o mundo. Buscar esse sentimento de transcendência com mais frequência. Escrever mais, ler mais, me conectar com a natureza e o outro. De me permitir sentir, sem pensar tanto, todos os sentimentos. Ainda há muita beleza nesse mundo doente.


*****

"De repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho. Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás" (Poema, Cazuza)

"Metade de mim agora é assim, de um lado a poesia, o verbo, a saudade; Do outro, a luta, força e coragem pra chegar no fim. E o fim é belo, incerto, depende de como você vê o novo, o credo,
a fé que você deposita em você e só.
Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você" (O Anjo Mais Velho - Fernando Anitelli)