domingo, 27 de setembro de 2026

4. Minha Mãe



 
Now, that she's back in the atmosphere
With drops of Jupiter in her hair
She acts like summer and walks like rain
Reminds me that there's time to change
Since the return of her stay on the Moon
She listens like spring and she talks like June

Train 

Ela carregava o amanhecer no nome. Dinalva. Nunca conheci outra Dinalva, só minha mãe. Sempre ouvi sua história com uma pena danada. Perdeu a mãe cedo, não foi cuidada como deveria. Muito da sua história eu escutei dela e de seus irmãos. Outras partes meio que inventei.

Nasceu na roça, cercada de montanhas. Filha número 3, a menina mais velha. Depois dela ainda vieram 4. Ela gostava de brincar com as plantas, criava bonecas com o capim, mas quase não teve chances de brincar. A vida não era fácil. Seu pai trabalhava muito na roça, não parava em casa. Sua mãe parecia sempre estar grávida, e cuidando de criança pequena. A mãe nunca parecia estar bem, e ela não entendia por que. Se perguntava sempre se era sua culpa. Será que não faço o suficiente? Ela via sempre a mãe preocupada pelos cantos, e de vez enquanto os tios e tias vinham ajudar, tiravam a mãe de perto deles, e a mãe sumia por alguns dias. Depois voltava. Parecia melhor, mas de repente, de novo, as coisas não andavam bem. A mãe às vezes ficava muito brava e nervosa, corria, gritava, pedia que todos se encondessem porque pessoas ruins estavam indo atrás deles. Ela não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas tinha muito medo. Um dia a mãe não voltou. 

Minha mãe e seus irmãos foram todos divididos em casas e cidades diferentes. Os mais novos foram levados por tios e avós. Os mais velhos, incluindo minha mãe, ficaram pra trás. Um mundo tão estranho. Ela era levada de casa em casa, mas todos faziam questão de deixar claro que não queriam ela por perto. Já estavam tendo muito trabalhos com os irmãos mais novos. Os mais velhos que se virassem. Mas como uma criança se vira? 

O pai se casou logo com outra mulher, e começaram a ter outros filhos. Irmãos da minha mãe. A madrasta cheia de trabalho também não queria crianças extras na casa, além dos seus. 

Meio sem ter pra onde ir, minha mãe foi acolhida por uma senhora, que também tinha filhas, e queria mais ajuda em casa. Minha mãe então morou por anos, pré adolescente, na casa desta senhora. Ela morava, mas não tinha casa. Não tinha seu espaço. Não tinha amor de familia. Minha mãe percebeu muito cedo que não pertencia. Não havia espaço seguro. Não havia cuidado algum. Dela era esperado obediência e trabalho. Seja quieta, não chame atenção, faça o que lhe é pedido.

Minha mãe aprendeu a dar conta sozinha. A se bastar. A não depender de amor, cuidado, ou atenção. De fora talvez seja dessas pessoas que chamamos de independente e forte. Ela foi abandonada, desolada, desamparada. Cresceu num mundo em que não havia diversão, havia apenas tempo para estar sempre preparada para o próximo dia, o próximo desafio. 

Ela também cresceu num mundo que ninguém a queria. Teve que criar um mundo dela, protegida por ela mesma. Sempre se perguntou como seria diferente se tivesse sua mãe. Por mais que também soubesse que a mãe não tinha tido a capacidade de cuidar. 

Minha mãe conheceu meu pai no final da adolescência, e se casaram alguns anos depois. Pela primeira vez ela tinha sua casa, seu canto, suas coisas. Na noite do dia 6 de agosto de 2008, uma semana antes de morrer, eu e ela passamos horas conversando deitadas numa cama pequena, só nós duas. Ela refletiu sobre sua vida, sem me dizer claramente que previa o fim chegando, embora eu e ela sabíamos. Ela me contou sua história e disse que só foi mesmo feliz quando se casou com meu pai e passou a ter seu espaço.

Minha mãe não foi perfeita, mas ela foi uma mãe incrível. Dessas que largam tudo mesmo a qualquer momento pelos filhos. Que tirava dela pra deixar pros filhos. Eu acho que na minha primeira infância, eu fui muito afetada por sua história. Eu tive uma mãe que há tão pouco tempo estava tomando as rédeas da vida, ainda cheia de marcas, com medo de mostrar afeto. 

Aprendi que minha mãe mostrava amor sem palavras ou abraços. Ela mostrava amor quando eu ligava pra ela de São Paulo pedindo dinheiro pra alguma coisa, e ela largava o que estava fazendo e ia no banco me depositar. Ela tinha um orgulho gigante de mim e do meu irmão.

MInha mãe era a irmã mais velha que resolvia os problemas para os outros, que ficava no hospital de acompanhante. Mas ela nunca ficava doente. Não lembro de ver minha mãe gripada.

Minha mãe amava a natureza, cachorrinhos, passarinhos. Cuidava deles com muito amor. 

Ela era dona de casa, e trabalhava muito como mãe. Fazia também trabalhos de cabeleireira. Sempre foi ela que cortou meu cabelo.

Ela amava ir eu reuniao na escola porque sempre só ouvia elogios sobre eu e meu irmão. 

As melhores lembranças que tenho dela são de passar um tempão na cozinha conversando sobre o que eu queria fazer da vida. Ela lavando louça e eu contando, sobre o que eu tinha visto sobre faculdades, onde ir, o que fazer. Ela me ouvia e sorria como se realmente fosse mesmo ela. O amor que eu sentia vindo dela era um amor muito próprio e característico. Muito forte. Eu cresci sabendo mesmo que o que eu precisasse ela estaria ali. 

Minha mãe era a chefe da casa. Meu pai trabalhava muito, mas ela que decidia o que fazer com dinheiro, próximos passos de tudo, o que comprar, o gerenciamento todo de nossas vidas. Escola, médicos, contas.

Ela quase não conheceu outros lugares. O mais longe que foi de casa foi Curitiba para um casamento. Sempre viajamos pro sul de minas, ou litoral norte de SP, viagens de menos de 4 horas de carro. Ela falava que gostaria de conhecer Roma e Japão. 

Ela gostava de Freddie Mercury e novelas da 6. Ouvia radio todos os dias. Gostava de conversar, mas no final do dia amava ficar quietinha pra dormir. Falava alto, talvez causado por uma surdez parcial que nunca foi decifrada. Ou talvez cultural: muitos na família falam alto.

Tinha amigos, e família. Mas a vida toda tinha aquele sentimentos de rejeição. Doía nela quando era mal tratada, ou quando não era convidada pra algum evento. Escolhia às vezes ficar na dela pra não se machucar. Nos anos que ia na igreja, sempre se sentava no último banco, quase atrás da porta, com óculos escuros. Passou por fases de mais ou menos religiosidade. 

Por muitos anos foi mulher ciumenta, de fazer cena. Eu crianca nunca entendi o porquê. Ela era muito bonita! Traços bonitos, olhos grandes, cabelo sempre arrumado. Nunca foi de muita maquiagem, não precisava. Aparentava ser muito mais jovem. Na adolescência sempre comentavam que pareciamos irmãs. E eu sempre ficava brava quando falavam que não nos pareciamos. 

As maiores lembranças com minha mãe são de momentos tranquilos em casa. Ela quase sempre fazendo alguma coisa. Ou eu e ela andando pelo centro resolvendo coisas da casa. Lembro muito do sorriso dela. E eu tenho muita esperança de estar certa que ela foi feliz de ser nossa mãe. 

Eu tento muito também guardar lembranças dela de antes de 2008. Porque ali, em seus últimos três meses, as lembranças são muito fortes e vivas, e muito doloridas. Cenas de um filme de drama que nunca imaginei seria parte da minha mãe, e nunca mais sairiam da minha memória.

Eu já estava na faculdade, quarto ano, em uma das minhas idas a Cruzeiro, ela me disse que reparou que estava tendo soluços. Sempre me arrepio quando lembro dessa cena, porque aqueles soluços eram sintomas de uma doença terminal. Hoje quando tenho hipocondria, nem me sinto tão mal, porque a vida me ensinou isso: um sintoma tao besta pode ser serio. 

Ela já vinha sentindo outros sintomas. No dia das mães de 2008 eu não fui pra Cruzeiro por estar ocupada na faculdade, e logo haveria um feriado prolongado, que seria melhor de viajar. Minha mãe foi num evento de dia das mães da família, e todos perceberam que ela não estava bem. Magra, abatida. Mais pro final de Maio, ela passou mal e foi levada ao hospital, onde ficou internada.

Eu estava fazendo um estágio à noite num hospital em São Paulo, e liguei pra ela de num orelhão. Ela me disse que faria  uma tomografia no dia seguinte, e eu falei como eu tinha medo daqueles exames. 

Fui pra Cruzeiro no dia seguinte para passar o feriado. Foi a primeira vez na vida que vi minha mãe doente. Deitada na cama do hospital, frágil. A médica responsável recebeu o resultado da tomografia, e nos chamou pra conversar em sua clínica, a poucos passos do hospital. Eu e meu irmão não entramos, acho que por medo. Meu pai entrou pra conversar. Ele saiu da sala abatido. Disse que havia uma pequena “mancha” no fígado, que precisava de tratamento. Ele não nos contou a história toda. 

Ali, à noite, na rua, na porta da clínica, o chão se abriu. Todos nós entramos num estado de desespero. Minha mãe nunca tinha ficado doente, e agora pelas poucas palavras do meu pai, era câncer.

Eu nem lembro como contamos pra ela, talvez não falamos com todas as letras. Ela foi pra casa, recebemos um monte de visitas! No dia seguinte nossa casa se encheu de família e amigos da igreja. Houveram muitas orações. 

Na segunda-feira eu fui sozinha conversar com um médico gastro da cidade pra ver quais seriam os próximos passos. Eu não lembro porque fui sozinha, mas eu muito ja no começo peguei um pouco as rédeas que eram da minha mãe. 

A cena da minha conversa com o médico foi um dos piores momentos da minha vida. Perguntei pro médico o que poderia ser feito. Ele me disse que não tinha o que ser feito. Que a gente deveria levar ela pra Sao Paulo, mas que não havia muito o que ser feito. Eu não chorei na frente do médico, mas assim que bati a porta, desabafei no corredor. Depois vendo o exame eu entendo exatamente o que o médico disse. O fígado dela estava tomado de metástases, não tinha nem como contar. Ela estava com câncer de cólon, estágio 4. Era um câncer já sem chances de cura.

Encarar minha mãe foi muito difícil. Ela me olhava querendo encontrar sinais do que eu poderia estar escondendo. Eu escondia muito. Medo, pânico. No dia seguinte eu, meu pai, meu irmão, e minha mãe saímos de carro em direção a Sao Paulo com um tanto de esperança que o médico de Cruzeiro estivesse errado. Ele não estava. Ela só voltou para Cruzeiro em um caixão. 

Do diagnóstico até sua morte foram 81 dias. Todos os dias de muita angústia, hospitais, internações, quimioterapia. Pontos de esperança. Naqueles dias nossas vidas ficaram num cabide, à espera. Mas nunca houve mesmo a chance de cura. 

Eu e meu irmão fazíamos faculdade em São Paulo na zone oeste, mas nossa família, inclusive eu e ele, ficamos na zona leste, na casa da minha tia. Minha mãe foi sempre atendida no hospital das Clínicas. Ficamos numa ida e vinda pela cidade, mas quase sempre ficamos com minha mãe. Passamos momentos ali de muito amor e cuidado. Dedicados a ela quase o tempo todo. A gente sentia mesmo que a vida dela estava indo, e a gente tentava agarrar com qualquer força que tínhamos. 

Tenho muitas e muitas cenas daqueles dias. Conversas com médicos - os piores momentos sempre eram esses. Dormir em hospital. Receber resultados de exames. 

Quando ela começou a quimioterapia fui conversar com o oncologista e ele me explicou sobre aquela quimio. Muito nova, promissora. Ele me disse que pacientes que antes viviam 9 meses, agora viviam 1 ano e meio. Eu só fiz as contas. Na melhor das hipóteses, ela não estaria na minha formatura. Não entendi o que era promissor.

Naqueles dias fomos aos poucos mesmo entendendo o que estava acontecendo, nunca aceitando, mas amando ela com toda nossa força. Como se aquele amor pudesse mesmo fazer milagres. 

Ela foi internada quase uma semana antes de morrer. Ficamos todos quase o tempo todo no hospital com ela. Um dia o médico me chamou e disse que estava na hora de começarmos a nos despedir. Ali foi o pior dia da minha vida. Pior que o dia em que ela morreu. Porque naquele dia que recebi a sentença mesmo que não tinha milagre nem amor nem qualquer possibilidade de levar ela pro resto da minha vida. 

Eu voltei pra sala de espera e encontrei meu pai e meu irmão. Não consegui falar nada. Fui ao banheiro, e deitei no chão, em desespero. Era o maior medo da vida acontecendo e eu não conseguia ver como seria possível viver sem ela. 

Ela passou alguns dias só dormindo. Acordava e pedia pra dormir. Começou a ficar muito quieta. No dia antes de morrer, acordou mais, pediu pra abraçar meu irmão e eu, estava com falta de ar. 

Na manhã do dia 12 de agosto de 2008, acordei na cadeira do hospital. Ela estava com os olhos fechados, respirando fundo. Falei no ouvido dela que ela podia descansar, como eu a amava, que eu iria cuidar do meu pai e irmão. 

Eu saí da sala, e entrei num banheiro, onde pela última vez na minha vida eu fiz uma oração, e fui ouvida. Pedi que Deus a ajudasse a descansar. Passou pouco tempo o médico nos chamou pra dizer que ela tinha morrido.

Aquele dia me quebrou. Nunca mais fui a mesma. E escrevendo isso me sinto culpada, por não ter consigo pegar todos os caquinhos e me construir. Como se eu devesse ter sido capaz de viver a mesma vida que levava até ali. Como se eu devesse isso pra minha mãe. Eu imagino que em seus últimos desejos ela deve ter pensando como queria que aquilo não nos destruísse. A culpa vem disso, aquele dia me destruiu, por completo. E não consegui mesmo voltar a ser a mesma pessoa. Tem sempre um caminho de tristeza  profunda muito fácil de acessar no meu cérebro. Aquelas cenas passam sempre na minha cabeça como um filme, a vida toda. Uma memória muito forte e viva. 

Hoje já tendo passado 18 anos ainda me dói muito. Viver sem ela foi um pesadelo no começo, e nunca deixou de ser a pior falha, o maior buraco na minha vida. Nos primeiros meses eu não conseguia dormir sem barulho, meus pensamentos eram insuportáveis. E não foi fácil também testemunhar o desamparo gigante do meu pai e irmão. Minha mãe era nossa rocha, quem nos guiava, cuidava. 

Mas eu sei que não havia como continuarmos iguais. O luto pela perda de uma pessoa de dentro de casa te quebra de uma forma estrutural. Como você vê o mundo e tem certezas. No caso da minha mãe havia também uma questão prática de quem resolve o que. Todos nós tivemos que aprender a fazer e resolver tudo. 

Percebo que reconstrui uma outra forma de viver. Que não constrói muita coisa com medo de tudo desabar de novo mas que vive os dias como são. Uma forma que tem sim esse filme que passa de tempos em tempos. Nunca uma sexta feira fria aleatória, do nada. Mas também tem uma certeza tão absoluta que sobrevivo. Porque sobrevivi àquele dia. E todos os demais. De saber que dou conta de experienciar a tristeza mais profunda, e ser feliz ainda no próximo dia. Como hoje, dia das mães, que me isolei, e passei o dia todo em pedaços, e só me recompus depois de sentar e escrever esse capítulo, num só fluxo de consciência, uma catarse de tristeza e saudade. E passa. Essa certeza foi a maior lição que minha mãe me ensinou.

Hoje com 40 anos, meu luto também chega à maioridade, 18 anos. Ainda aqui, uma parte essencial de mim. Ele me ensinou a ver beleza e agradecer os dias tranquilos. Me faz sentir muito mal quando não sou feliz. Eu sinto uma obrigação com minha mãe de ser feliz. De viver a vida de forma que a honre,  e eu decidi que isso não quer dizer tomar decisões baseados no que ela faria, mas de viver o que ela não viveu. Eu acredito que isso tenha me trazido aqui, a essa vida de tantos lugares, com tantas variações. Já fui a Roma, e Tóquio. Paro para ver passarinhos. E penso em você todos os dias da minha vida.



Cruzeiro, Dezembro de 2007, 21 anos

sábado, 25 de julho de 2026

2. Medo

   

“Eu tenho medo e já aconteceu.
Eu tenho medo e inda está por vir.
Morre o meu medo e isto não é segredo.
Eu mando buscar outro lá no Piauí."
Belchior

O mundo sempre me pareceu um pouco assustador, e ando por aí com cautela e prestando atenção nos perigos e riscos que possam estar no caminho. Este capítulo talvez seja resultado de muitas sessões de terapia, e embora exija um tanto de vulnerabilidade escrever e compartilhar, vem de um lugar de muita consciência, cura e coragem. 

Talvez o começo seja antes de mim. Li recentemente o livro “Não começou com você”, que me fez pensar no quanto minha mãe ter crescido num ambiente sem segurança e cuidado possa ter influenciado como eu encaro o mundo. Seja pelas histórias contadas por ela, ou na forma dela lidar com o mundo e seus medos, ou epigenética. O mundo inseguro e desolador da infância dela respingou em mim.

     Quando criança meu medo aparecia como timidez excessiva. Eu tinha muito medo de pessoas. Na primeira escola, com 4 anos, eu era quieta, quase muda, fazia tudo que pediam, mas não conseguia conversar. Talvez hoje eu seria diagnosticado com algum nível de autismo. Em casa e com meus primos eu conseguia sim ser expressiva. Mas qualquer lugar longe de casa ou da minha mãe não pareciam seguros para qualquer expressão de mim. Talvez meu maior medo sempre foi causar problemas para os outros. 

Da primeira série ao me formar no Ensino Médio, estudei na mesma escola, que era relativamente pequena e fazia parte da igreja que eu frequentava. Morei sempre na mesma casa e rua. Então cresci dentro de uma comunidade estável, o que facilitou muito a vida da criança tímida, me ajudou a ter amizades bem fortes, mas não ajudou no desenvolvimento de outras habilidades sociais: por muitos anos só frequentei lugares familiares, demorou para aprender que eu sobreviveria no não familiar.

E mesmo naqueles ambientes familiares, parecia haver um risco grande se eu não fosse a boa aluna, quieta, comportada. De novo, o medo de causar problemas. Críticas e julgamentos eram muito temidos.  Tenho algumas lembranças de momentos na infância em que “não me comportei bem”, seja por dizer uma palavra errada num jogral da escola, ou de tramar esconder um boné de um colega, ou esbarrar num outro estudante e derrubar seu lanche: todas situações completamente corriqueiras e nada sérias. Mas as críticas e julgamentos vindos dos outros doeram em mim de forma tão intensa, que ficaram gravados na memória de maneira bem marcante. 

Mas ainda bem que no caminho da vida existe a adolescência! Hormônios e descobertas foram remédios naturais que desligaram um pouco este sistema de alerta. E foram anos incríveis, como a adolescência deve ser, com aventuras e riscos, ainda bem. Tive também a sorte de ter um grupo de amigos para dividir esses momentos, que se tornaram quase família. Me vi adolescente cheia de sonhos e vontades de me aventurar no mundo, morar em outras cidades, explorar outras formas de vida. 

Eu cresci não indo tão longe de casa. Minha família fazia viagens de carro que no máximo duravam 3 horas. Qualquer lugar além me parecia um mundo muito distante. Naquela época existia muita ambiguidade em mim: a menina medrosa que só se sentia confortável em casa, sentia também o mundo a chamando para conhecer mais. A busca por segurança e por aventuras, juntas, quase sempre.

Quando terminei o ensino médio, algumas semanas antes de começar o cursinho, passei uns dias na casa de uma tia querida em São Paulo. Naquela semana andei pelo centro de São Paulo com meu primo, conheci a cidade um pouco mais de perto. Lembro da sensação estranha de acordar com os barulhos de muitos carros. Aquela semana foi curta, mas mudou alguma coisa em mim. Me fez sentir mais confiante que eu tinha que explorar novos lugares. 

Passei no vestibular, e me mudei para São Paulo, com 18 anos. O primeiro ano de faculdade não foi fácil. Eu passava muitos finais de semana em Cruzeiro, e na volta para São Paulo, quando o ônibus ia chegando na rodoviaria do Tiete, me dava sempre uma sensação de medo grande. Não sei se pela distância com a família, ou de chegar e estar em volta de tanto desconhecido, numa cidade gigantesca. Estar na cidade grande tem também um tanto de lidar com medos objetivos. Estar em volta de desconhecidos em outro nível. Maior criminalidade. Se preocupar mais em prestar atenção na rua. 

Ano passado peguei uns diários antigos pra ler e me surpreendi ao lembrar como eu tive muito medo dessa mudança. Medo de não fazer amizades, de me perder de mim, de não me acostumar. Quando li esses diários, mais de 20 anos depois, senti de inicio uma sensação desconfortável de vergonha. Como eu tinha medo de tentar outras vidas! Mas depois de um dia como aquele desconforto, comecei a perceber que eu quase não me reconhecia mais naquela menina descobrindo o mundo com tanto medo, embora me lembre muito claramente ter escrito e vivido aqueles momentos. Fiquei depois com muito orgulho daquela menina, que tímida e sem confiança saiu de casa, aprendeu, se virou. Lendo aqueles textos eu não acredito que aquela menina teve coragem de mudar de país. Fiquei também com pena daquela menina, melancólica, preocupada, sensível, mal sabia que depois de poucos anos ia ter que ver a mãe e o pai irem embora. Pensei em como aquela menina não sobreviveria. Mas sobreviveu. Sobrevivi.

São Paulo me surpreendeu, e os anos de faculdade abriram o mundo para mim de maneira dramática. E eu fui feliz naqueles anos de faculdade! Tive a sorte de fazer amigos logo no começo e levá-los comigo por toda a faculdade e até hoje. Pessoas com quem me identifiquei tão rapidamente, e nos acolhemos. Talvez por eu ter estudado sempre no mesmo lugar e conhecido sempre as mesmas pessoas, eu não soubesse ainda que era possível conhecer pessoas como eu, fora do meu mundo. Na verdade, os amigos que fiz na faculdade e na república pareciam como um reencontro, de uma parte minha que talvez não tivesse ainda aparecido. Aos poucos estar longe de casa foi se tornando um sentimento também familiar. 

No quarto ano da faculdade fiz um estagio num IML dentro de um hospital que recebia vitimas de violência sexual. Meu trabalho, como estagiária de psicologia, era estar na ambulância que trazia as vítimas (mulheres ou crianças) das delegacias até o hospital para fazer o exame de corpo de delito. Eu estava ali para conversar e acolher. Foram poucos meses mas me colocaram em contato com outras realidades de vida. Muitas das delegacias eram em regiões periféricas da cidade, levava às vezes 2h para a ambulância chegar. Escutei histórias de vulnerabilidade social tão distantes da minha realidade de segurança e proteção. Cresci muito naqueles meses.

Na mesma época deste estágio minha mãe ficou doente. Vou escrever mais sobre ela depois. Mas por aqui quero contar como a doença e morte da minha mãe foram uma quebra tão intensa de um nível de estrutura segura que eu tinha na vida, e não consegui processar corretamente pela rapidez e intensidade dos acontecimentos e dores. Foram semanas intensas lidando com uma situação sem esperança e solução, independente do que eu fizesse. Conversas com médicos, todas de notícias ruins. Esperas por exames, sempre péssimos. E no final estava ali um penhasco gigante, em que minha família cairia, não importasse o que a gente fizesse.  

Por mais que minha personalidade tenha sempre sido cuidadosa e preocupada, depois da morte da minha mãe passei a ter ansiedade generalizada. Como se meu neurônios soubesse muito rapidamente o caminho de sentir que algo terrível está por acontecer. Estou sempre em alerta, procurando com o que me preocupar, ou como estar preparada para o pior. 

Nos últimos anos, com terapia e morando num lugar mais calmo, consegui entender e explicar essas conexões. Mas existem também fatores objetivos. Acredito que viver sem uma forte rede de apoio, por ser estrangeira e por não ter meus pais, me sinto vulnerável, o que piora a ansiedade. Viver em alerta tem um tanto de querer estar preparada, e de não ter um porto seguro. Tento aprender que outros portos também são amigos, e nos naufrágios, existem botes salva vidas. E se falharem?

Sei que este problema não é só meu. Rede social, instabilidade social, o trauma da pandemia, famílias menores, a rapidez de tudo, sem dar tempo de processar. Nossos cérebros estão cansados. Pedem mais calma para dar conta do mundo. Nos últimos anos tenho tentado dar tempo ao meu cérebro. Tentando, nem sempre conseguindo, diminuir tudo que pede pressa e rapidez, como horas em rede social. Ler e focar mais em um assunto por vez.  Não dar a falsa impressão de urgência constante, ao nosso corpo e cérebro, que entendem a urgência como perigo.

Tenho também tentado não ter medo de errar ou desagradar, meu maior desafio. Um dos livros que me influenciaram recentemente foi “Corajosa Sim, Perfeita Não”, da Reshma Saujani. A principal ideia é que no geral meninas são criadas para serem perfeitas e temerem erros. Enquanto meninos são incentivados ao risco e aventuras, mesmo que se machuquem ou errem. E essas diferenças acabam contribuindo para que mulheres se limitem mais, e vivam mais em função de agradar o outro, e não criar problemas. Percebo que existo no mundo tentando não tomar muito espaço, sempre agradar, não criar conflitos, sempre concordar. Dizer sim quando quero dizer não para não decepcionar, evitar conflito a qualquer custo nem que seja para meu prejuízo ou desvantagem, ou controlar cada detalhe do que possa acontecer, evitar que eu seja culpada por algo ter dado errado. Mesmo com estranhos e pessoas que não importam, ou nunca mais vou ver. 

Há uns 3 anos  numa viagem longa de avião, eu estava sentada no assento da janela, e acordei precisando ir ao banheiro depois de ter bebido muita água. A pessoa ao meu lado dormiu o voo inteiro, e eu não tive coragem de acordá-la e pedir passagem. Cheguei no destino passando mal, por não querer desagradar uma pessoa sem qualquer importância. Este dia virou uma chave em mim: eu percebi que minha tendência de agradar é fora do normal, eu parecia estar disposta a sofrer fisicamente ao invés de “desagradar” alguém com uma coisa tão boba. Como uma mulher na beira dos 40 vai ter medo de pedir passagem no avião para ir ao banheiro? Urgentemente isso precisava parar.

Talvez mais fácil com desconhecidos, não tão fácil no ambiente de trabalho, por exemplo. Essa tendência de sempre querer agradar aparece sempre, quando concordo com prazos impossíveis, e fico estressada para dar conta. Ou quando lido com colegas ou clientes difíceis, e me contorço de todas as formas para agradar alguém que talvez não possa ser agradada, ou que não faz um mínimo de esforço de ser agradável. Conflitos, pendências, desacordos, e desconfortos me são insuportáveis.

Percebo que com o tempo fui entendendo a origem desses medos, e construindo ferramentas para lidar. Uma delas exige muita coragem: fazer o que te dá mais medo. O familiar é sempre confortável, então tento me colocar de propósito em situações desconfortáveis, até que elas se tornem familiares. Quanto mais a gente evita desconfortos, mas a gente acredita que não vai mesmo suportar. Um ciclo onde o medo se auto alimenta e cresce sem controle. Para combatê-lo, precisamos mesmo olhar na cara do que nos deixa com medo e enfrentar, inevitável quando se espera expandir a vida. Hoje, mudar, por exemplo, se tornou familiar, e já faz vários anos que não consigo ficar muito tempo no mesmo lugar (Talvez o medo do não-familiar tenha dado espaço ao medo de não ter tempo de ver tudo e experimentar tudo que quero). Preciso ainda trabalhar dizer não, tomar espaço, colocar a culpa no outro, criar problemas, suportar o outro estar desconfortável sem que eu precise agir.

Em 8 de abril de 2024 parte dos Estados Unidos estava no caminho de um eclipse solar total. O caminho da totalidade passaria alguns estados ao norte, em Vermont. Eu venho há um tempo tendo muito interesse em coisas do céu e universo, e sou daquelas que tira foto de todo pôr do sol. A possibilidade de ver um eclipse total do sol era um sonho, e uma raridade. Eu já estava com planos de ir um ano antes do evento, olhando hotéis e caminhos. Mas acabei não reservando nada, com receio do dia estar chuvoso ou nublado (evitando riscos sempre...).

Na semana do eclipse foi confirmado que as cidades de Vermont que eu havia pesquisado teriam o céu aberto, perfeito pro evento. Mas o eclipse total duraria pouco mais de 2 minutos. O passeio envolvia dirigir 4 horas com trânsito até uma cidade no caminho da totalidade, esperar o eclipse, depois dirigir de volta 4 horas, ou mais, com previsão de muito trânsito. Não havia mais hotel disponível no caminho da totalidade. Por conta disso ninguém quis ir comigo. Era um passeio meio sem sentido. 

Mas para mim era um sonho! Então peguei meu medo de dirigir, e minha coragem, e fui sozinha. E foi tudo incrível e perfeito. Acordei com o nascer do sol, dirigi 4 horas pro norte, fui até uma cidade no caminho do eclipse, sentei num parque, com centenas de outras pessoas. O eclipse total durou 2 minutos, mas foi uma das coisas mais lindas que já vi. O dia virando noite, todo mundo celebrando ao meu redor, a lua escura com um anel cintilante, quase rosa, em volta. Cheguei a chorar. Por estar vivenciando aquele momento, e pela minha coragem de fazer uma mini loucura para mim, por mim. Logo sai, e peguei um super trânsito! Mas já havia reservado um hotel a 1 hora para que eu não dirigisse a noite, é só seguir para casa no dia seguinte. Quem voltou para Massachusetts ou outros estados no mesmo dia pegou horas e horas de trânsito. Foi um dos meus dias mais felizes e corajosos!

Assim como outros atos de muita coragem que já tive nesses 40 anos. Por exemplo, quando peguei o avião em 2011 para me mudar pros Estados Unidos. Confesso que fui fingindo coragem, mas fui. Exige muita coragem mudar de país, um recomeço, aprender como existir em outra cultura e lingua, sustentar essa escolha. Ou quando encaro de frente meus lutos e tristezas. Infelizmente é comum as pessoas viverem em prol de negar nossa finitude, de se ocupar o tempo todo por não conseguirem ficar sozinhas com seus próprios pensamentos e fantasmas. Eu sempre, mesmo jovem, encarei de frente melancolias e tristezas, e quando precisei me recompor de perdas gigantes, não tive medo nenhum de me afundar nelas. Me afundo até hoje. Já são muito familiares.

Chego aqui nos 40, ainda como uma menina, aprendendo que muito do meu medo infantil se transformou, e é na verdade um maravilhamento e espanto com o mundo, minha palavra favorita em inglês, awe. Aquela sensação de contemplar algo grandioso e imenso, como o céu estrelado, ou o topo de uma montanha, quando somos tão pequenos. E que minha ansiedade anda de mãos dadas com uma vontade e esperança de viver intensamente. No corpo, o sentimento é tão parecido! Coração acelerado, respiração rápida. Como andar de montanha russa, gritando, apavorada, com um nó no estômago, e o vento no rosto, e no final uma sensação incrível de vida vivida. 

Chego aqui nos 40 também cheia de ambiguidades. A menina que agradava, quietinha para não dar trabalho, convive aqui dentro com uma pessoa resolvida, que se conhece muito bem, entende os próprios sentimentos. Uma parte minha adora rotina e ficar em casa, e acha loucura todas as minhas mudanças, e outra, que quer explorar e conhecer tudo. Uma parte mais madura e segura, que faz o que quer, coexistindo com meu lado mais infantil e medroso, controlado pelos outros. Existem partes conflitantes que coexistem, assim como parte grande da coragem é ter muito medo: exige muita coragem para fazer tudo com medo. E eu quase sempre estou assim, vivendo e explorando, com medo. 

No mês que faço 40 encaro uma aventura, encaixoto a vida, e saio de carro, eu, marido e cachorro, atravessar esse país todinho, e ir explorar outro lugar, completamente novo. Ir com medo e coragem, mas ir. Começo esta nova década com muita vontade de me jogar no não familiar, sem tentar controlar todos os riscos, mas ocupando espaços, falando alto, sem pedir licença para estar no mundo. Não negando o medo, que me protege, mas de mãos dadas minha coragem, que me completa. Quero me sentir segura, mas preciso com urgência me sentir viva. 


“Hoje eu acordei com medo, mas não chorei nem reclamei abrigo

Do escuro, eu via um infinito sem presente, passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo, era uma coisa sua que ficou em mim que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa

Morna e ingênua que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado

Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás”

Cazuza

 

                                                    Cruzeiro, Brasil, 1989, 3 anos

sexta-feira, 5 de junho de 2026

1. Rotas

Deixe-me ir, preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar Quero assistir ao Sol nascer Ver as águas dos rios correr Ouvir os pássaros cantar Eu quero nascer Quero viver Se alguém por mim perguntar Diga que eu só vou voltar Depois que me encontrar

(Candeia)  


Faz dois anos que penso neste dia obsessivamente. Talvez tenha pensado neste dia minha vida toda. Porque na minha ingenuidade infantil "quando eu for mais velha" sempre foi este dia, 5 de junho de 2026, o dia que faço 40 anos. Engraçado pensar que quando eu tinha lá meus 12 anos, eu pensava muito no futuro, mas eu nunca imaginei que o futuro seria assim, como minha vida aconteceu. Talvez seja assim com todo mundo, a vida acontece cheia de surpresas.

A gente cresce achando que existe uma forma certa de organizar a vida, uma progressão linear. Faculdade, casamento, filhos, ajudar os filhos com suas próprias progressões lineares, cuidar dos pais idosos, se despedir dos pais, chegar você na velhice, com seus filhos e netos. O ciclo natural da vida, tudo seguindo um caminho pré-traçado. Eu chego aqui nos 40 com uma vida bem fora disso tudo, me sentindo tão menina,  meio perdida, mas com uma sensação que existem todas as possibilidades do mundo pela frente.

Nunca imaginei que faria 40 anos assim, empacotando a vida, prestes a colocar tudo num container, atravessando um país que nem é meu, mas onde moro há mais de uma década, em busca de novas experiências. Meio sem raízes, meio solta no mundo. Quem me conheceu adolescente nunca teria imaginado, porque fui uma criança e adolescente tímida, bem comportada, responsável, nada aventureira. Nerd, CDF, religiosa. Aquela adolescente que os pais dos amigos confiavam, e se eu estivesse no grupo, eles permitiam o que quer que fosse, porque eu com certeza não me comportaria mal. Meio medrosa, controlava como me comportava, botava muito peso na opinião do outro. 

E décadas depois, cá estou. Imigrante, vivendo em outra língua, órfã, sem filhos por escolha, meio nômade, desapegada, sem crenças formais, em uma carreira diferente do que estudei. Talvez aquém do meu potencial acadêmico, ou o que esperavam de mim. Acho que por um tempo eu entrei sim no caminho já traçado de vida e sucesso padrão: sai do interior de onde nasci e cresci para morar na cidade gigante e estudar na melhor universidade do país. A poucos anos talvez de me casar, ter filhos. Até que dois eventos me tiraram deste caminho, entre meus 22 e 23 anos: um drama de chorar por horas e um romance clássico de cinema. Me fizeram virar esquinas sem retorno. Sai de vez da progressão linear.  Entrei em outra rota, que não estava no mapa, sem caminho pré-traçado.

Em 2008 eu estava no quarto ano de faculdade. A vida estava indo bem, eu cheia de sonhos, a vida se abrindo na minha frente, com tantas possibilidades. E minha mãe ficou doente, de repente. Ela começou a passar mal em Abril, e em Maio foi diagnosticada com um câncer já sem chances de cura. De um dia para o outro fomos completamente tomados pela notícia avassaladora que ela não estaria com a gente por muito tempo. Um pesadelo. Ela viveu 81 dias entre o diagnóstico e a partida. Hoje, quase 18 anos depois, existem tantas cenas daqueles dias que aparecem ainda de repente na minha memória, e são mesmo como um filme muito triste, envolto em desespero e desamparo. 

Eu nunca fui a mesma. A morte da minha mãe foi a primeira grande tragédia que vivi por dentro, de dentro, e não consegui seguir do mesmo jeito. Me quebrou, e precisei reconstruir uma outra forma de viver. Deixei uma parte muito grande de mim ali com ela, com minhas certezas, minha fé, e uma completude que nunca mais senti. Passei meses sem conseguir ter agenda, sem organizar nada, sem conseguir dormir no silêncio. Comecei a carregar comigo mais medos, mais ansiedades, uma desconexão com os outros. Mas também uma percepção dos detalhes e beleza das coisas, do valor dos dias simples, que só quem perdeu a pessoa que mais amava no mundo pode entender. O medo e a beleza lado a lado, pela total consciência que a finitude está logo ali. 

Poucos meses depois da morte da minha mãe, apareceu uma oportunidade de concorrer a um programa de bolsa de intercâmbio, o que sempre tinha sido meu sonho. Exatamente um ano depois da morte da minha mãe, agosto de 2009, sai pela primeira vez do Brasil, embarquei pra Holanda, para estudar um semestre da faculdade na Universidade de Leiden. 

E ali virei outra esquina: desta vez cheia de sonhos, e aventuras. Em poucos meses o mundo se abriu de uma forma dramática e intensa, conheci gente de vários países. Entendi como existem tantas formas diferentes de existir no mundo, mas ao mesmo tempo, como é incrível encontrar pessoas parecidos com você que cresceram do outro lado do planeta. Me entendi mais como parte de um mundo tão maior! Me conectei com meu país de outra forma, porque nada te faz mais brasileira que morar fora. Você se reconhece muito mais na comparação com o outro, e na forma como os outros te veem. Aqueles seis meses foram os mais alegres e festeiros da minha vida. Deixei a menina cdf e responsável descansar, estudei pouco, saí quase todas as noites, socializei mais que em qualquer outro período da vida. Viajei pela Europa. Aquele semestre me salvou de várias formas.

E entrei num filme de romance. Um dos amigos que fiz era um americano porto riquenho, inteligente, e charmoso. Me mostrou tanto de arte e culturas. E nos apaixonamos. Daqueles romances mesmo de filme, que quase acabou em muitas lágrimas no aeroporto se despedindo do romance de intercâmbio. Mas levamos pra vida. Ele primeiro morou uns meses no Brasil, depois nos mudamos pros EUA, onde moro há 15 anos.

As rotas e mudanças tem um tanto de acaso, sorte e azar. Mas também escolhas conscientes. Minha escolha de transferir a vida para outro país foi meu maior ato de coragem até agora. Quando lembro dos medos que eu tinha com 18 anos ao sair do interior e ir pra São Paulo, percebo que aos poucos fui me aventurando, indo mais longe, sempre ainda com muito medo e cautela. Mas indo.

Eu já estava nos EUA por um ano quando meu pai também ficou doente, também com câncer, também já sem chances de cura. E continuei meu processo de luto que começou com o trauma da morte da minha mãe, e continuou agora com a morte do meu pai, como se eu tivesse seis anos depois só vivendo a continuação da mesma história. Mas desta vez eu já estava calejada, já com feridas abertas. Eu já sabia sofrer daquela forma. Eu já sabia que sobrevivia.

A morte do meu pai acabou de levar o que eu tinha de casa, literalmente. Desfiz de tudo da nossa casa, casa construída por eles. Cada canto pensado, planejado, orçado, para ser espaço de uma vida segura e feliz. Com meu pai foi embora minha ultima fonte de amor incondicional. 

Com 27 anos eu já não tinha meus pais. E tem muitas solidões nesta realidade. A solidão de não ter pra onde ir. A solidão de não ter mais quem eu era com eles. De não ter o olhar que eles tinham pra mim, com muito orgulho e admiração. Também a solidão de não conhecer ninguém que tenha chegado aos 27 sem os pais, com exceção do meu irmão, que divide esses lutos comigo, e se tornou meu porto seguro. Não estou dizendo que é a pior coisa que alguém possa passar, não é. Mas ter que cuidar dos pais no final da vida, enterrá-los, fechar a casa, não é coisa que a gente espera viver nos 20 anos. Era pra ser muito e muito depois, quando eu já estivesse muito mais velha. A vida quebrou um acordo que eu achei que existia de que as coisas seguiam uma ordem. Hoje com 40 anos já não tenho meus pais vivos há mais de uma década, e ainda sinto muito ter essa vida sem colo. Esses lutos são partes estruturais de quem eu sou, pois com eles precisei me reconstruir.

Para além de viver a vida sem eles, eu também sinto muito pela vida que eles não tiveram. Meus pais nasceram, viveram, e morreram num raio de poucos quilômetros de distância. Meu pai fez faculdade, casou, construiu casa, trabalhou muito (manhã, tarde e noite por muitos anos), viajou pouco (embora adorasse!), morreu poucos anos depois de se aposentar. Minha mãe não teve nenhuma chance na vida de estudar, perdeu a mãe ainda criança, trabalhou em casa de família pré adolescente, casou, construiu casa, cuidou dos filhos, cozinha e limpava a casa todo dia, conheceu pouquíssimos lugares, morreu com 46 anos. 

Eu acredito que meus pais foram de certa forma felizes. Eles tinham uma comunidade, a família presente, amavam a família. Mas percebo que as perdas e mudanças me levaram a evitar repetir a vida deles, e a procurar viver tudo que eles não viveram. Fui criar uma vida tão longe de onde nasci, já conheci tantos outros países, já me mudei para diferentes estados dentro dos EUA. Não consigo ficar no mesmo lugar mais que alguns poucos anos.  

Para além dos meus pais, vivo uma vida muito diferente de todas as mulheres que vieram antes de mim, algo que é bem comum na minha geração, ainda bem. Minha bisavó Rosa teve mais de 10 filhos. Minhas avós e mãe cresceram, nasceram, e morreram na mesma região, do nascimento a morte não tinha mais de 100 km. Todas boas cozinheiras, casas limpíssimas, cuidadoras. Cuidaram dos filhos tão bem. Também cuidaram dos irmãos, e sobrinhos, e largavam tudo para resolver problemas para os outros. Faziam tudo para os maridos. Nenhuma se divorciou. Minha avó materna morreu antes dos 40. Minha mãe, nos 40. Eu venho de uma linhagem materna de mulheres que morreram antes dos 50, e viveram para os outros. Viveram pouco.

Não estou aqui dizendo que uma vida é pior ou melhor que a outra, ou que sou mais feliz que elas foram. Talvez até exista mais sentido em viver em famílias maiores, em se doar, da forma que fizeram. Difícil dizer. Mas tenho o super privilégio de poder perguntar e responder: o que eu quero da minha vida? Escolhi seguir o oposto de todas elas. Viver mais e para mim. Estudei, tive acesso a universidades importantes, trabalho, não tive filhos por escolha, emigrei, moro há milhares de quilômetros de onde nasci. Eu brinco de lego, e colorir, e coleciono pelúcias. Tenho tempo de ler, ir à academia, dormir até tarde. Tempo de parar, refletir e escrever, meu hobby favorito. Já conheci mais de 15 países. Já morei em 3 países. Já morei em São Paulo, Nova York, Boston, zona rural de Connecticut, uma cidadezinha na Holanda, no Texas. Estou aqui a poucos dias de me mudar para a Califórnia. Cozinho mal pra caramba (não tenho orgulho disso!). Meu marido lava a própria roupa, organiza o que comprar no supermercado, e pilota a cozinha. Com relação a longevidade, não há muito que eu possa fazer, isso fica mais a cargo da sorte e azar. Mas faço o que está ao meu alcance pela saúde e segurança. 

Escolhas. Versões de vida. Caminhos que são fechados quando a gente decide virar uma esquina. A gente nunca vai saber o que seria atrás de outras esquinas. Todas as nossas possíveis versões tem partes tristes e felizes, mas às vezes caímos numa armadilha de pensar que uma outra versão nossa seria mais feliz.  Como seria minha vida se eu nunca tivesse saído do Brasil? Se minha mãe fosse viva? Se eu tivesse estudado outro curso? Se eu tivesse escolhido ter filhos? Contrafactual. Nunca saberemos. 

Eu venho aprendendo que é uma tarefa essencial, com a passagem do tempo, que a gente faça as pazes entre o idealizado e o vivido, com tudo o que você não se tornou, e com todas as portas do passado que você fechou, ou que fecharam para você. É muito fácil olhar para trás e identificar com facilidade que caminhos tortos foram tomados quando não devíamos. Ou pensar que uma outra versão da vida seria muito melhor. Mas a nossa visão de hoje é tão mais potente! Nos perdoar faz parte desta caminhada, assim como sentir falta do que não aconteceu é normal, e aceitar que todas as escolhas fecharam outros caminhos, e que sempre há renúncias.

Também aceitar que coisas acontecem com a gente, fora do nosso controle. A vida adulta até aqui foi muito confusa. Passei meus 20s lidando com lutos e sobrevivendo. Nos 30s, me recompondo, aprendendo mais a ser eu no mundo, o que eu gosto, o que quero ser, não com a régua dos outros, mas com a minha. Uma década cheia de decisões, instabilidade, aprendizados. Teve a pandemia no meio. Estou sempre me perguntando o que quero, como quero a vida. Retraçando a rota quando necessário. Entendo que existem tantas formas de retorno e re-traçar rotas. Tenho uma vida sem muitas amarras que dificultariam não mudar se não estivesse bem. Parece que posso escolher qualquer caminho ou lugar, a qualquer momento. E tem dias que isso me traz muita satisfação! E tem dias que isso me enlouquece. Muita liberdade pode ser cansativo. Seguir o caminho traçado faz parecer que é o caminho certo. Seguir caminho não traçado faz você parar de tempos em tempos e se perguntar se está perdido. 

Tenho aprendido que não estou perdida, porque este conceito não existe. Não existe caminho, quem o cria é você. Estou experienciando a vida, com suas paletas, tons, e emoções. Sinto que aqui nos 40 existe uma leveza na certeza que, embora seja importante sustentar nossas escolhas, a gente sobrevive às consequências e aos acasos, a gente tem segundas e terceiras chances, retraçar a rota é sempre uma vitória, e quase nada é definitivo. Acredito que ainda terei outras diferentes versões, em diferentes cenários. Mas é sim impossível viver todas as vidas possíveis. Então precisamos escolher. 

Eu nunca vou saber o que é ter pais velhinhos. Não vou saber como é gerar uma vida. Nem como é ser boa cozinheira. Assim como outras pessoas não vão saber como é morar em outro país, ou ter 13 graus de miopia, ou ter 40 anos sem ser mãe e sem ter mãe. Existe espaço para várias formas de experienciar ser gente, e estar no mundo. Ainda bem. 

Talvez uma das decisões mais importantes na minha vida tenha sido a de não ter filhos. Uma decisão muito pensada, mas também difícil, porque vai contra o biológico e o cultural. Nossa sociedade se organiza em famílias, e ter filhos, criar novos humanos, é uma parte tão importante da vida. Eu esperei chegar o momento em que me desse vontade de ser mãe, mas embora eu adore crianças, brincar, ver como elas descobrem o mundo, a vontade não veio. Entre os 35 e 37 parei mesmo para pensar, por estar chegando no limite biológico. Eu consigo listar 50 razões pelas quais decidi não ter filhos, algumas mais bobas, e outras mais importantes. Mas consigo também ver que uma versão alternativa da minha vida se sentiria muito mais confortável para ter filhos. Mas esta minha versão, sem mãe, imigrante, cheia de preocupações e alguns traumas, não conseguiu. E isso vem de um lugar de respeito gigantesco com a maternidade. Acho tão intenso, que não acredito que daria conta. Talvez no fim não fui mãe por muitos e muitos medos. 

Sei que é comum perguntarem: “e se você se arrepender”? Posso dizer com 100% de certeza: irei me arrepender, lá pelos menos 60 e poucos. Mas lá, se eu chegar, eu lido com essa escolha da maneira que for. Talvez a idade biológica não bateu com a idade de me sentir preparada e bem pra ser mãe. Talvez a vontade venha nos 50, quando for tarde para ser mãe biológica, mas possível de outras formas. Talvez porque precisei lidar com tanto nos 20, ou por ter mudado de país e recomeçado algumas vezes, me sinto muito jovem para ser mãe. Com 40 anos, vai entender! Perdi o sinal do tempo.

Este é um outro ponto engraçado. Nunca imaginei que chegar aos 40 seria sentido como tão jovem. Sei que não sou a única, é coisa da nossa geração millenium. Por mais que eu seja uma adulta, com trabalho, profissional, responsável, pague minhas contas, dou conta do mundo, tenho minha própria casa, ainda me sinto uma menina, perdida no shopping, com um medo danado de estranhos, e procurando desesperadamente pela minha mãe. Mesmo que eu tenha vivido tantos momentos de coragens intensas, onde mergulhei em dores emocionais de cabeça ou me joguei pro mundo, morando tão longe de casa. Ainda uma menina.

E esta é a minha maior confusão com essa idade: o tempo! Ontem eu estava lá com 17 anos em Cruzeiro, pisquei, e cá estou com 40. Aconteceram muitas vidas nestes anos todos, mas ao mesmo tempo parece que passou mais rápido que dei conta de entender. Estou abismada e admirada, tentando entender a passagem do tempo. Estaria mentindo se dissesse que não me incomoda o passar do tempo. Se olhar no espelho, ver mais rugas, cabelos brancos. Esta sensação que os últimos 20 anos passaram muito mais rápido que dei conta de aproveitar. Chegar aos 40 tem sim um peso simbólico. 

E existe também um jogo grande com as perdas. Colágeno, energia, oportunidades, pessoas. Os anos no futuro diminuem a cada dia. Parece que nossa vez passa pra dar caminho pra quem vêm. Existem também muitos ganhos, sendo a experiência a maior delas. Ver com mais claridade a vida acontecendo. Tantas rotas no passado, fica mais fácil identificar quais caminhos seguir. 

Espero que nos 40 eu encontre mais da minha versão corajosa, sem medo de desagradar, sem medo do ridículo, que vive mais no mundo do que na minha cabeça. Que sente mais do que pensa. Que aceita sentir mais  raiva e alegria, sem culpa. Que tem o trabalho como uma pequena parte da vida, e que não seja tão dura consigo mesma. Que briga mais com sua tendência de viver na rotina e conforto, e troque isso pela vontade avassaladora de viver. Intensamente, mesmo nos segundos mais simples e banais. Por mim, por meus pais, e por todos que vieram antes de mim. Essa linha acaba em mim, preciso viver por todos.

Desejo isso a todos os mesmos amigos e familiares, em qualquer idade, 20, 40, 60, 90. Seja numa vida mais linear ou bagunçada. Abrir espaço para o novo sempre. Novos hobbies, novos aprendizados. Novas formas de rotina e ser no mundo. Lugares novos. Pessoas novas. Independente de suas escolhas e rotas, abrir espaço e ir atrás de experiências com intenção. A vida passa mas continua crescendo e se expandindo. Lute veementemente contra a ideia que o melhor da vida já passou. Os bons tempos são sempre agora. E ainda há muitas outras esquinas aí pela frente. Não tenha medo de errar. 


You, music of my late years, I am called By a sound and a color which are more and more perfect. Do not die out, fire. Enter my dreams, love. Be young forever, seasons of the earth.

(Czaslaw Milosz) 

 

Arizona, EUA, 2018, 32 anos