sábado, 25 de julho de 2026

2. Medo

   

“Eu tenho medo e já aconteceu.
Eu tenho medo e inda está por vir.
Morre o meu medo e isto não é segredo.
Eu mando buscar outro lá no Piauí."
Belchior

O mundo sempre me pareceu um pouco assustador, e ando por aí com cautela e prestando atenção nos perigos e riscos que possam estar no caminho. Este capítulo talvez seja resultado de muitas sessões de terapia, e embora exija um tanto de vulnerabilidade escrever e compartilhar, vem de um lugar de muita consciência, cura e coragem. 

Talvez o começo seja antes de mim. Li recentemente o livro “Não começou com você”, que me fez pensar no quanto minha mãe ter crescido num ambiente sem segurança e cuidado possa ter influenciado como eu encaro o mundo. Seja pelas histórias contadas por ela, ou na forma dela lidar com o mundo e seus medos, ou epigenética. O mundo inseguro e desolador da infância dela respingou em mim.

     Quando criança meu medo aparecia como timidez excessiva. Eu tinha muito medo de pessoas. Na primeira escola, com 4 anos, eu era quieta, quase muda, fazia tudo que pediam, mas não conseguia conversar. Talvez hoje eu seria diagnosticado com algum nível de autismo. Em casa e com meus primos eu conseguia sim ser expressiva. Mas qualquer lugar longe de casa ou da minha mãe não pareciam seguros para qualquer expressão de mim. Talvez meu maior medo sempre foi causar problemas para os outros. 

Da primeira série ao me formar no Ensino Médio, estudei na mesma escola, que era relativamente pequena e fazia parte da igreja que eu frequentava. Morei sempre na mesma casa e rua. Então cresci dentro de uma comunidade estável, o que facilitou muito a vida da criança tímida, me ajudou a ter amizades bem fortes, mas não ajudou no desenvolvimento de outras habilidades sociais: por muitos anos só frequentei lugares familiares, demorou para aprender que eu sobreviveria no não familiar.

E mesmo naqueles ambientes familiares, parecia haver um risco grande se eu não fosse a boa aluna, quieta, comportada. De novo, o medo de causar problemas. Críticas e julgamentos eram muito temidos.  Tenho algumas lembranças de momentos na infância em que “não me comportei bem”, seja por dizer uma palavra errada num jogral da escola, ou de tramar esconder um boné de um colega, ou esbarrar num outro estudante e derrubar seu lanche: todas situações completamente corriqueiras e nada sérias. Mas as críticas e julgamentos vindos dos outros doeram em mim de forma tão intensa, que ficaram gravados na memória de maneira bem marcante. 

Mas ainda bem que no caminho da vida existe a adolescência! Hormônios e descobertas foram remédios naturais que desligaram um pouco este sistema de alerta. E foram anos incríveis, como a adolescência deve ser, com aventuras e riscos, ainda bem. Tive também a sorte de ter um grupo de amigos para dividir esses momentos, que se tornaram quase família. Me vi adolescente cheia de sonhos e vontades de me aventurar no mundo, morar em outras cidades, explorar outras formas de vida. 

Eu cresci não indo tão longe de casa. Minha família fazia viagens de carro que no máximo duravam 3 horas. Qualquer lugar além me parecia um mundo muito distante. Naquela época existia muita ambiguidade em mim: a menina medrosa que só se sentia confortável em casa, sentia também o mundo a chamando para conhecer mais. A busca por segurança e por aventuras, juntas, quase sempre.

Quando terminei o ensino médio, algumas semanas antes de começar o cursinho, passei uns dias na casa de uma tia querida em São Paulo. Naquela semana andei pelo centro de São Paulo com meu primo, conheci a cidade um pouco mais de perto. Lembro da sensação estranha de acordar com os barulhos de muitos carros. Aquela semana foi curta, mas mudou alguma coisa em mim. Me fez sentir mais confiante que eu tinha que explorar novos lugares. 

Passei no vestibular, e me mudei para São Paulo, com 18 anos. O primeiro ano de faculdade não foi fácil. Eu passava muitos finais de semana em Cruzeiro, e na volta para São Paulo, quando o ônibus ia chegando na rodoviaria do Tiete, me dava sempre uma sensação de medo grande. Não sei se pela distância com a família, ou de chegar e estar em volta de tanto desconhecido, numa cidade gigantesca. Estar na cidade grande tem também um tanto de lidar com medos objetivos. Estar em volta de desconhecidos em outro nível. Maior criminalidade. Se preocupar mais em prestar atenção na rua. 

Ano passado peguei uns diários antigos pra ler e me surpreendi ao lembrar como eu tive muito medo dessa mudança. Medo de não fazer amizades, de me perder de mim, de não me acostumar. Quando li esses diários, mais de 20 anos depois, senti de inicio uma sensação desconfortável de vergonha. Como eu tinha medo de tentar outras vidas! Mas depois de um dia como aquele desconforto, comecei a perceber que eu quase não me reconhecia mais naquela menina descobrindo o mundo com tanto medo, embora me lembre muito claramente ter escrito e vivido aqueles momentos. Fiquei depois com muito orgulho daquela menina, que tímida e sem confiança saiu de casa, aprendeu, se virou. Lendo aqueles textos eu não acredito que aquela menina teve coragem de mudar de país. Fiquei também com pena daquela menina, melancólica, preocupada, sensível, mal sabia que depois de poucos anos ia ter que ver a mãe e o pai irem embora. Pensei em como aquela menina não sobreviveria. Mas sobreviveu. Sobrevivi.

São Paulo me surpreendeu, e os anos de faculdade abriram o mundo para mim de maneira dramática. E eu fui feliz naqueles anos de faculdade! Tive a sorte de fazer amigos logo no começo e levá-los comigo por toda a faculdade e até hoje. Pessoas com quem me identifiquei tão rapidamente, e nos acolhemos. Talvez por eu ter estudado sempre no mesmo lugar e conhecido sempre as mesmas pessoas, eu não soubesse ainda que era possível conhecer pessoas como eu, fora do meu mundo. Na verdade, os amigos que fiz na faculdade e na república pareciam como um reencontro, de uma parte minha que talvez não tivesse ainda aparecido. Aos poucos estar longe de casa foi se tornando um sentimento também familiar. 

No quarto ano da faculdade fiz um estagio num IML dentro de um hospital que recebia vitimas de violência sexual. Meu trabalho, como estagiária de psicologia, era estar na ambulância que trazia as vítimas (mulheres ou crianças) das delegacias até o hospital para fazer o exame de corpo de delito. Eu estava ali para conversar e acolher. Foram poucos meses mas me colocaram em contato com outras realidades de vida. Muitas das delegacias eram em regiões periféricas da cidade, levava às vezes 2h para a ambulância chegar. Escutei histórias de vulnerabilidade social tão distantes da minha realidade de segurança e proteção. Cresci muito naqueles meses.

Na mesma época deste estágio minha mãe ficou doente. Vou escrever mais sobre ela depois. Mas por aqui quero contar como a doença e morte da minha mãe foram uma quebra tão intensa de um nível de estrutura segura que eu tinha na vida, e não consegui processar corretamente pela rapidez e intensidade dos acontecimentos e dores. Foram semanas intensas lidando com uma situação sem esperança e solução, independente do que eu fizesse. Conversas com médicos, todas de notícias ruins. Esperas por exames, sempre péssimos. E no final estava ali um penhasco gigante, em que minha família cairia, não importasse o que a gente fizesse.  

Por mais que minha personalidade tenha sempre sido cuidadosa e preocupada, depois da morte da minha mãe passei a ter ansiedade generalizada. Como se meu neurônios soubesse muito rapidamente o caminho de sentir que algo terrível está por acontecer. Estou sempre em alerta, procurando com o que me preocupar, ou como estar preparada para o pior. 

Nos últimos anos, com terapia e morando num lugar mais calmo, consegui entender e explicar essas conexões. Mas existem também fatores objetivos. Acredito que viver sem uma forte rede de apoio, por ser estrangeira e por não ter meus pais, me sinto vulnerável, o que piora a ansiedade. Viver em alerta tem um tanto de querer estar preparada, e de não ter um porto seguro. Tento aprender que outros portos também são amigos, e nos naufrágios, existem botes salva vidas. E se falharem?

Sei que este problema não é só meu. Rede social, instabilidade social, o trauma da pandemia, famílias menores, a rapidez de tudo, sem dar tempo de processar. Nossos cérebros estão cansados. Pedem mais calma para dar conta do mundo. Nos últimos anos tenho tentado dar tempo ao meu cérebro. Tentando, nem sempre conseguindo, diminuir tudo que pede pressa e rapidez, como horas em rede social. Ler e focar mais em um assunto por vez.  Não dar a falsa impressão de urgência constante, ao nosso corpo e cérebro, que entendem a urgência como perigo.

Tenho também tentado não ter medo de errar ou desagradar, meu maior desafio. Um dos livros que me influenciaram recentemente foi “Corajosa Sim, Perfeita Não”, da Reshma Saujani. A principal ideia é que no geral meninas são criadas para serem perfeitas e temerem erros. Enquanto meninos são incentivados ao risco e aventuras, mesmo que se machuquem ou errem. E essas diferenças acabam contribuindo para que mulheres se limitem mais, e vivam mais em função de agradar o outro, e não criar problemas. Percebo que existo no mundo tentando não tomar muito espaço, sempre agradar, não criar conflitos, sempre concordar. Dizer sim quando quero dizer não para não decepcionar, evitar conflito a qualquer custo nem que seja para meu prejuízo ou desvantagem, ou controlar cada detalhe do que possa acontecer, evitar que eu seja culpada por algo ter dado errado. Mesmo com estranhos e pessoas que não importam, ou nunca mais vou ver. 

Há uns 3 anos  numa viagem longa de avião, eu estava sentada no assento da janela, e acordei precisando ir ao banheiro depois de ter bebido muita água. A pessoa ao meu lado dormiu o voo inteiro, e eu não tive coragem de acordá-la e pedir passagem. Cheguei no destino passando mal, por não querer desagradar uma pessoa sem qualquer importância. Este dia virou uma chave em mim: eu percebi que minha tendência de agradar é fora do normal, eu parecia estar disposta a sofrer fisicamente ao invés de “desagradar” alguém com uma coisa tão boba. Como uma mulher na beira dos 40 vai ter medo de pedir passagem no avião para ir ao banheiro? Urgentemente isso precisava parar.

Talvez mais fácil com desconhecidos, não tão fácil no ambiente de trabalho, por exemplo. Essa tendência de sempre querer agradar aparece sempre, quando concordo com prazos impossíveis, e fico estressada para dar conta. Ou quando lido com colegas ou clientes difíceis, e me contorço de todas as formas para agradar alguém que talvez não possa ser agradada, ou que não faz um mínimo de esforço de ser agradável. Conflitos, pendências, desacordos, e desconfortos me são insuportáveis.

Percebo que com o tempo fui entendendo a origem desses medos, e construindo ferramentas para lidar. Uma delas exige muita coragem: fazer o que te dá mais medo. O familiar é sempre confortável, então tento me colocar de propósito em situações desconfortáveis, até que elas se tornem familiares. Quanto mais a gente evita desconfortos, mas a gente acredita que não vai mesmo suportar. Um ciclo onde o medo se auto alimenta e cresce sem controle. Para combatê-lo, precisamos mesmo olhar na cara do que nos deixa com medo e enfrentar, inevitável quando se espera expandir a vida. Hoje, mudar, por exemplo, se tornou familiar, e já faz vários anos que não consigo ficar muito tempo no mesmo lugar (Talvez o medo do não-familiar tenha dado espaço ao medo de não ter tempo de ver tudo e experimentar tudo que quero). Preciso ainda trabalhar dizer não, tomar espaço, colocar a culpa no outro, criar problemas, suportar o outro estar desconfortável sem que eu precise agir.

Em 8 de abril de 2024 parte dos Estados Unidos estava no caminho de um eclipse solar total. O caminho da totalidade passaria alguns estados ao norte, em Vermont. Eu venho há um tempo tendo muito interesse em coisas do céu e universo, e sou daquelas que tira foto de todo pôr do sol. A possibilidade de ver um eclipse total do sol era um sonho, e uma raridade. Eu já estava com planos de ir um ano antes do evento, olhando hotéis e caminhos. Mas acabei não reservando nada, com receio do dia estar chuvoso ou nublado (evitando riscos sempre...).

Na semana do eclipse foi confirmado que as cidades de Vermont que eu havia pesquisado teriam o céu aberto, perfeito pro evento. Mas o eclipse total duraria pouco mais de 2 minutos. O passeio envolvia dirigir 4 horas com trânsito até uma cidade no caminho da totalidade, esperar o eclipse, depois dirigir de volta 4 horas, ou mais, com previsão de muito trânsito. Não havia mais hotel disponível no caminho da totalidade. Por conta disso ninguém quis ir comigo. Era um passeio meio sem sentido. 

Mas para mim era um sonho! Então peguei meu medo de dirigir, e minha coragem, e fui sozinha. E foi tudo incrível e perfeito. Acordei com o nascer do sol, dirigi 4 horas pro norte, fui até uma cidade no caminho do eclipse, sentei num parque, com centenas de outras pessoas. O eclipse total durou 2 minutos, mas foi uma das coisas mais lindas que já vi. O dia virando noite, todo mundo celebrando ao meu redor, a lua escura com um anel cintilante, quase rosa, em volta. Cheguei a chorar. Por estar vivenciando aquele momento, e pela minha coragem de fazer uma mini loucura para mim, por mim. Logo sai, e peguei um super trânsito! Mas já havia reservado um hotel a 1 hora para que eu não dirigisse a noite, é só seguir para casa no dia seguinte. Quem voltou para Massachusetts ou outros estados no mesmo dia pegou horas e horas de trânsito. Foi um dos meus dias mais felizes e corajosos!

Assim como outros atos de muita coragem que já tive nesses 40 anos. Por exemplo, quando peguei o avião em 2011 para me mudar pros Estados Unidos. Confesso que fui fingindo coragem, mas fui. Exige muita coragem mudar de país, um recomeço, aprender como existir em outra cultura e lingua, sustentar essa escolha. Ou quando encaro de frente meus lutos e tristezas. Infelizmente é comum as pessoas viverem em prol de negar nossa finitude, de se ocupar o tempo todo por não conseguirem ficar sozinhas com seus próprios pensamentos e fantasmas. Eu sempre, mesmo jovem, encarei de frente melancolias e tristezas, e quando precisei me recompor de perdas gigantes, não tive medo nenhum de me afundar nelas. Me afundo até hoje. Já são muito familiares.

Chego aqui nos 40, ainda como uma menina, aprendendo que muito do meu medo infantil se transformou, e é na verdade um maravilhamento e espanto com o mundo, minha palavra favorita em inglês, awe. Aquela sensação de contemplar algo grandioso e imenso, como o céu estrelado, ou o topo de uma montanha, quando somos tão pequenos. E que minha ansiedade anda de mãos dadas com uma vontade e esperança de viver intensamente. No corpo, o sentimento é tão parecido! Coração acelerado, respiração rápida. Como andar de montanha russa, gritando, apavorada, com um nó no estômago, e o vento no rosto, e no final uma sensação incrível de vida vivida. 

Chego aqui nos 40 também cheia de ambiguidades. A menina que agradava, quietinha para não dar trabalho, convive aqui dentro com uma pessoa resolvida, que se conhece muito bem, entende os próprios sentimentos. Uma parte minha adora rotina e ficar em casa, e acha loucura todas as minhas mudanças, e outra, que quer explorar e conhecer tudo. Uma parte mais madura e segura, que faz o que quer, coexistindo com meu lado mais infantil e medroso, controlado pelos outros. Existem partes conflitantes que coexistem, assim como parte grande da coragem é ter muito medo: exige muita coragem para fazer tudo com medo. E eu quase sempre estou assim, vivendo e explorando, com medo. 

No mês que faço 40 encaro uma aventura, encaixoto a vida, e saio de carro, eu, marido e cachorro, atravessar esse país todinho, e ir explorar outro lugar, completamente novo. Ir com medo e coragem, mas ir. Começo esta nova década com muita vontade de me jogar no não familiar, sem tentar controlar todos os riscos, mas ocupando espaços, falando alto, sem pedir licença para estar no mundo. Não negando o medo, que me protege, mas de mãos dadas minha coragem, que me completa. Quero me sentir segura, mas preciso com urgência me sentir viva. 


“Hoje eu acordei com medo, mas não chorei nem reclamei abrigo

Do escuro, eu via um infinito sem presente, passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo, era uma coisa sua que ficou em mim que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa

Morna e ingênua que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado

Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás”

Cazuza

 

                                                    Cruzeiro, Brasil, 1989, 3 anos