Now, that she's back in the atmosphereWith drops of Jupiter in her hairShe acts like summer and walks like rainReminds me that there's time to changeSince the return of her stay on the MoonShe listens like spring and she talks like June
Train
Ela carregava o amanhecer no nome. Dinalva. Nunca conheci outra Dinalva, só minha mãe. Sempre ouvi sua história com uma pena danada. Perdeu a mãe cedo, não foi cuidada como deveria. Muito da sua história eu escutei dela e de seus irmãos. Outras partes meio que inventei.
Nasceu na roça, cercada de montanhas. Filha número 3, a menina mais velha. Depois dela ainda vieram 4. Ela gostava de brincar com as plantas, criava bonecas com o capim, mas quase não teve chances de brincar. A vida não era fácil. Seu pai trabalhava muito na roça, não parava em casa. Sua mãe parecia sempre estar grávida, e cuidando de criança pequena. A mãe nunca parecia estar bem, e ela não entendia por que. Se perguntava sempre se era sua culpa. Será que não faço o suficiente? Ela via sempre a mãe preocupada pelos cantos, e de vez enquanto os tios e tias vinham ajudar, tiravam a mãe de perto deles, e a mãe sumia por alguns dias. Depois voltava. Parecia melhor, mas de repente, de novo, as coisas não andavam bem. A mãe às vezes ficava muito brava e nervosa, corria, gritava, pedia que todos se encondessem porque pessoas ruins estavam indo atrás deles. Ela não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas tinha muito medo. Um dia a mãe não voltou.
Minha mãe e seus irmãos foram todos divididos em casas e cidades diferentes. Os mais novos foram levados por tios e avós. Os mais velhos, incluindo minha mãe, ficaram pra trás. Um mundo tão estranho. Ela era levada de casa em casa, mas todos faziam questão de deixar claro que não queriam ela por perto. Já estavam tendo muito trabalhos com os irmãos mais novos. Os mais velhos que se virassem. Mas como uma criança se vira?
O pai se casou logo com outra mulher, e começaram a ter outros filhos. Irmãos da minha mãe. A madrasta cheia de trabalho também não queria crianças extras na casa, além dos seus.
Meio sem ter pra onde ir, minha mãe foi acolhida por uma senhora, que também tinha filhas, e queria mais ajuda em casa. Minha mãe então morou por anos, pré adolescente, na casa desta senhora. Ela morava, mas não tinha casa. Não tinha seu espaço. Não tinha amor de familia. Minha mãe percebeu muito cedo que não pertencia. Não havia espaço seguro. Não havia cuidado algum. Dela era esperado obediência e trabalho. Seja quieta, não chame atenção, faça o que lhe é pedido.
Minha mãe aprendeu a dar conta sozinha. A se bastar. A não depender de amor, cuidado, ou atenção. De fora talvez seja dessas pessoas que chamamos de independente e forte. Ela foi abandonada, desolada, desamparada. Cresceu num mundo em que não havia diversão, havia apenas tempo para estar sempre preparada para o próximo dia, o próximo desafio.
Ela também cresceu num mundo que ninguém a queria. Teve que criar um mundo dela, protegida por ela mesma. Sempre se perguntou como seria diferente se tivesse sua mãe. Por mais que também soubesse que a mãe não tinha tido a capacidade de cuidar.
Minha mãe conheceu meu pai no final da adolescência, e se casaram alguns anos depois. Pela primeira vez ela tinha sua casa, seu canto, suas coisas. Na noite do dia 6 de agosto de 2008, uma semana antes de morrer, eu e ela passamos horas conversando deitadas numa cama pequena, só nós duas. Ela refletiu sobre sua vida, sem me dizer claramente que previa o fim chegando, embora eu e ela sabíamos. Ela me contou sua história e disse que só foi mesmo feliz quando se casou com meu pai e passou a ter seu espaço.
Minha mãe não foi perfeita, mas ela foi uma mãe incrível. Dessas que largam tudo mesmo a qualquer momento pelos filhos. Que tirava dela pra deixar pros filhos. Eu acho que na minha primeira infância, eu fui muito afetada por sua história. Eu tive uma mãe que há tão pouco tempo estava tomando as rédeas da vida, ainda cheia de marcas, com medo de mostrar afeto.
Aprendi que minha mãe mostrava amor sem palavras ou abraços. Ela mostrava amor quando eu ligava pra ela de São Paulo pedindo dinheiro pra alguma coisa, e ela largava o que estava fazendo e ia no banco me depositar. Ela tinha um orgulho gigante de mim e do meu irmão.
MInha mãe era a irmã mais velha que resolvia os problemas para os outros, que ficava no hospital de acompanhante. Mas ela nunca ficava doente. Não lembro de ver minha mãe gripada.
Minha mãe amava a natureza, cachorrinhos, passarinhos. Cuidava deles com muito amor.
Ela era dona de casa, e trabalhava muito como mãe. Fazia também trabalhos de cabeleireira. Sempre foi ela que cortou meu cabelo.
Ela amava ir eu reuniao na escola porque sempre só ouvia elogios sobre eu e meu irmão.
As melhores lembranças que tenho dela são de passar um tempão na cozinha conversando sobre o que eu queria fazer da vida. Ela lavando louça e eu contando, sobre o que eu tinha visto sobre faculdades, onde ir, o que fazer. Ela me ouvia e sorria como se realmente fosse mesmo ela. O amor que eu sentia vindo dela era um amor muito próprio e característico. Muito forte. Eu cresci sabendo mesmo que o que eu precisasse ela estaria ali.
Minha mãe era a chefe da casa. Meu pai trabalhava muito, mas ela que decidia o que fazer com dinheiro, próximos passos de tudo, o que comprar, o gerenciamento todo de nossas vidas. Escola, médicos, contas.
Ela quase não conheceu outros lugares. O mais longe que foi de casa foi Curitiba para um casamento. Sempre viajamos pro sul de minas, ou litoral norte de SP, viagens de menos de 4 horas de carro. Ela falava que gostaria de conhecer Roma e Japão.
Ela gostava de Freddie Mercury e novelas da 6. Ouvia radio todos os dias. Gostava de conversar, mas no final do dia amava ficar quietinha pra dormir. Falava alto, talvez causado por uma surdez parcial que nunca foi decifrada. Ou talvez cultural: muitos na família falam alto.
Tinha amigos, e família. Mas a vida toda tinha aquele sentimentos de rejeição. Doía nela quando era mal tratada, ou quando não era convidada pra algum evento. Escolhia às vezes ficar na dela pra não se machucar. Nos anos que ia na igreja, sempre se sentava no último banco, quase atrás da porta, com óculos escuros. Passou por fases de mais ou menos religiosidade.
Por muitos anos foi mulher ciumenta, de fazer cena. Eu crianca nunca entendi o porquê. Ela era muito bonita! Traços bonitos, olhos grandes, cabelo sempre arrumado. Nunca foi de muita maquiagem, não precisava. Aparentava ser muito mais jovem. Na adolescência sempre comentavam que pareciamos irmãs. E eu sempre ficava brava quando falavam que não nos pareciamos.
As maiores lembranças com minha mãe são de momentos tranquilos em casa. Ela quase sempre fazendo alguma coisa. Ou eu e ela andando pelo centro resolvendo coisas da casa. Lembro muito do sorriso dela. E eu tenho muita esperança de estar certa que ela foi feliz de ser nossa mãe.
Eu tento muito também guardar lembranças dela de antes de 2008. Porque ali, em seus últimos três meses, as lembranças são muito fortes e vivas, e muito doloridas. Cenas de um filme de drama que nunca imaginei seria parte da minha mãe, e nunca mais sairiam da minha memória.
Eu já estava na faculdade, quarto ano, em uma das minhas idas a Cruzeiro, ela me disse que reparou que estava tendo soluços. Sempre me arrepio quando lembro dessa cena, porque aqueles soluços eram sintomas de uma doença terminal. Hoje quando tenho hipocondria, nem me sinto tão mal, porque a vida me ensinou isso: um sintoma tao besta pode ser serio.
Ela já vinha sentindo outros sintomas. No dia das mães de 2008 eu não fui pra Cruzeiro por estar ocupada na faculdade, e logo haveria um feriado prolongado, que seria melhor de viajar. Minha mãe foi num evento de dia das mães da família, e todos perceberam que ela não estava bem. Magra, abatida. Mais pro final de Maio, ela passou mal e foi levada ao hospital, onde ficou internada.
Eu estava fazendo um estágio à noite num hospital em São Paulo, e liguei pra ela de num orelhão. Ela me disse que faria uma tomografia no dia seguinte, e eu falei como eu tinha medo daqueles exames.
Fui pra Cruzeiro no dia seguinte para passar o feriado. Foi a primeira vez na vida que vi minha mãe doente. Deitada na cama do hospital, frágil. A médica responsável recebeu o resultado da tomografia, e nos chamou pra conversar em sua clínica, a poucos passos do hospital. Eu e meu irmão não entramos, acho que por medo. Meu pai entrou pra conversar. Ele saiu da sala abatido. Disse que havia uma pequena “mancha” no fígado, que precisava de tratamento. Ele não nos contou a história toda.
Ali, à noite, na rua, na porta da clínica, o chão se abriu. Todos nós entramos num estado de desespero. Minha mãe nunca tinha ficado doente, e agora pelas poucas palavras do meu pai, era câncer.
Eu nem lembro como contamos pra ela, talvez não falamos com todas as letras. Ela foi pra casa, recebemos um monte de visitas! No dia seguinte nossa casa se encheu de família e amigos da igreja. Houveram muitas orações.
Na segunda-feira eu fui sozinha conversar com um médico gastro da cidade pra ver quais seriam os próximos passos. Eu não lembro porque fui sozinha, mas eu muito ja no começo peguei um pouco as rédeas que eram da minha mãe.
A cena da minha conversa com o médico foi um dos piores momentos da minha vida. Perguntei pro médico o que poderia ser feito. Ele me disse que não tinha o que ser feito. Que a gente deveria levar ela pra Sao Paulo, mas que não havia muito o que ser feito. Eu não chorei na frente do médico, mas assim que bati a porta, desabafei no corredor. Depois vendo o exame eu entendo exatamente o que o médico disse. O fígado dela estava tomado de metástases, não tinha nem como contar. Ela estava com câncer de cólon, estágio 4. Era um câncer já sem chances de cura.
Encarar minha mãe foi muito difícil. Ela me olhava querendo encontrar sinais do que eu poderia estar escondendo. Eu escondia muito. Medo, pânico. No dia seguinte eu, meu pai, meu irmão, e minha mãe saímos de carro em direção a Sao Paulo com um tanto de esperança que o médico de Cruzeiro estivesse errado. Ele não estava. Ela só voltou para Cruzeiro em um caixão.
Do diagnóstico até sua morte foram 81 dias. Todos os dias de muita angústia, hospitais, internações, quimioterapia. Pontos de esperança. Naqueles dias nossas vidas ficaram num cabide, à espera. Mas nunca houve mesmo a chance de cura.
Eu e meu irmão fazíamos faculdade em São Paulo na zone oeste, mas nossa família, inclusive eu e ele, ficamos na zona leste, na casa da minha tia. Minha mãe foi sempre atendida no hospital das Clínicas. Ficamos numa ida e vinda pela cidade, mas quase sempre ficamos com minha mãe. Passamos momentos ali de muito amor e cuidado. Dedicados a ela quase o tempo todo. A gente sentia mesmo que a vida dela estava indo, e a gente tentava agarrar com qualquer força que tínhamos.
Tenho muitas e muitas cenas daqueles dias. Conversas com médicos - os piores momentos sempre eram esses. Dormir em hospital. Receber resultados de exames.
Quando ela começou a quimioterapia fui conversar com o oncologista e ele me explicou sobre aquela quimio. Muito nova, promissora. Ele me disse que pacientes que antes viviam 9 meses, agora viviam 1 ano e meio. Eu só fiz as contas. Na melhor das hipóteses, ela não estaria na minha formatura. Não entendi o que era promissor.
Naqueles dias fomos aos poucos mesmo entendendo o que estava acontecendo, nunca aceitando, mas amando ela com toda nossa força. Como se aquele amor pudesse mesmo fazer milagres.
Ela foi internada quase uma semana antes de morrer. Ficamos todos quase o tempo todo no hospital com ela. Um dia o médico me chamou e disse que estava na hora de começarmos a nos despedir. Ali foi o pior dia da minha vida. Pior que o dia em que ela morreu. Porque naquele dia que recebi a sentença mesmo que não tinha milagre nem amor nem qualquer possibilidade de levar ela pro resto da minha vida.
Eu voltei pra sala de espera e encontrei meu pai e meu irmão. Não consegui falar nada. Fui ao banheiro, e deitei no chão, em desespero. Era o maior medo da vida acontecendo e eu não conseguia ver como seria possível viver sem ela.
Ela passou alguns dias só dormindo. Acordava e pedia pra dormir. Começou a ficar muito quieta. No dia antes de morrer, acordou mais, pediu pra abraçar meu irmão e eu, estava com falta de ar.
Na manhã do dia 12 de agosto de 2008, acordei na cadeira do hospital. Ela estava com os olhos fechados, respirando fundo. Falei no ouvido dela que ela podia descansar, como eu a amava, que eu iria cuidar do meu pai e irmão.
Eu saí da sala, e entrei num banheiro, onde pela última vez na minha vida eu fiz uma oração, e fui ouvida. Pedi que Deus a ajudasse a descansar. Passou pouco tempo o médico nos chamou pra dizer que ela tinha morrido.
Aquele dia me quebrou. Nunca mais fui a mesma. E escrevendo isso me sinto culpada, por não ter consigo pegar todos os caquinhos e me construir. Como se eu devesse ter sido capaz de viver a mesma vida que levava até ali. Como se eu devesse isso pra minha mãe. Eu imagino que em seus últimos desejos ela deve ter pensando como queria que aquilo não nos destruísse. A culpa vem disso, aquele dia me destruiu, por completo. E não consegui mesmo voltar a ser a mesma pessoa. Tem sempre um caminho de tristeza profunda muito fácil de acessar no meu cérebro. Aquelas cenas passam sempre na minha cabeça como um filme, a vida toda. Uma memória muito forte e viva.
Hoje já tendo passado 18 anos ainda me dói muito. Viver sem ela foi um pesadelo no começo, e nunca deixou de ser a pior falha, o maior buraco na minha vida. Nos primeiros meses eu não conseguia dormir sem barulho, meus pensamentos eram insuportáveis. E não foi fácil também testemunhar o desamparo gigante do meu pai e irmão. Minha mãe era nossa rocha, quem nos guiava, cuidava.
Mas eu sei que não havia como continuarmos iguais. O luto pela perda de uma pessoa de dentro de casa te quebra de uma forma estrutural. Como você vê o mundo e tem certezas. No caso da minha mãe havia também uma questão prática de quem resolve o que. Todos nós tivemos que aprender a fazer e resolver tudo.
Percebo que reconstrui uma outra forma de viver. Que não constrói muita coisa com medo de tudo desabar de novo mas que vive os dias como são. Uma forma que tem sim esse filme que passa de tempos em tempos. Nunca uma sexta feira fria aleatória, do nada. Mas também tem uma certeza tão absoluta que sobrevivo. Porque sobrevivi àquele dia. E todos os demais. De saber que dou conta de experienciar a tristeza mais profunda, e ser feliz ainda no próximo dia. Como hoje, dia das mães, que me isolei, e passei o dia todo em pedaços, e só me recompus depois de sentar e escrever esse capítulo, num só fluxo de consciência, uma catarse de tristeza e saudade. E passa. Essa certeza foi a maior lição que minha mãe me ensinou.
Hoje com 40 anos, meu luto também chega à maioridade, 18 anos. Ainda aqui, uma parte essencial de mim. Ele me ensinou a ver beleza e agradecer os dias tranquilos. Me faz sentir muito mal quando não sou feliz. Eu sinto uma obrigação com minha mãe de ser feliz. De viver a vida de forma que a honre, e eu decidi que isso não quer dizer tomar decisões baseados no que ela faria, mas de viver o que ela não viveu. Eu acredito que isso tenha me trazido aqui, a essa vida de tantos lugares, com tantas variações. Já fui a Roma, e Tóquio. Paro para ver passarinhos. E penso em você todos os dias da minha vida.
