domingo, 10 de maio de 2015

Mãe, queria te contar...

Tanta coisa que eu queria te contar. 

Esses dias me lembrei das muitas e muitas vezes que eu encostava na pia de casa enquanto você lavava louça, e te contava sobre a escola e sobre as coisas que eu queria fazer. Você sempre confiou que eu sabia escolher e sempre me fez acreditar que eu poderia chegar onde quisesse. Você acreditava no melhor lado de mim. Acho que há uns 12 anos essa cena da pia acontecia quase todos os dias. Eu te falava que eu queria ir pra São Paulo, queria estudar na USP, queria queria queria tanta coisa.

Você viu aquele sonho acontecer, me apoiou sem limites. Mas tantos outros sonhos  você não viu... Quando fiz intercâmbio, quando me formei na faculdade, quando consegui meu primeiro emprego. Acho que por isso que não quis casar com festa, e não gosto da ideia de ter filho. O que mais você não vai ver? 

Esta semana termino meu mestrado em Harvard, e daqui três semanas tem uma cerimonia super bonita e tradicional, em que todos os formandos de graduação, mestrado e doutorado se reúnem no gramado de uma das melhores universidades do mundo pra receber o diploma. Quando eu lembro das nossas conversas 12 anos atrás, como é possível você não estar aqui? Muita coisa aconteceu nos últimos sete anos pra que isso acontecesse, mas nada teria acontecido se não fosse você. Você cresceu em condições difíceis, e nem fez nem ensino médio. Mas desde quando eu era bem nova, você sempre sempre me ensinou que eu tinha que estudar. Você queria que eu chegasse aqui onde cheguei. Quando eu tinha uns 12 anos você ouviu alguém dizer que eu tinha que aprender inglês, e todo semestre, por anos, estava você lá me matriculando, indo atrás de descontos, fazendo o possível e impossível pra que eu fizesse aquelas aulas. O mesmo com o cursinho, pra que eu pudesse ir pra uma universidade boa. Obrigada, por sua persistência, por sua noção de prioridade que sempre colocou eu e meu irmão na frente das decisões, pela forte noção de ética que eu tenho, por ter me ensinado a ser tão forte, tão forte como você. Eu cresci ouvindo sua dor de ter perdido sua mãe tão jovem, do quanto que a vida foi dura com você e seus irmãos por isso, mas sempre soube da sua força. E ela que me faz ser forte hoje, mesmo sem você, mesmo com essa saudade tão gigante. Essa força que me faz seguir sonhos, apesar de tudo, mesmo sabendo que você nunca vai saber. É tão estranho seguir a vida...tanto que eu queria que você soubesse.

Eu queria te contar que moro em outro país, que meu irmão entrou na USP, de novo. Queria te contar que já tenho quase 30 anos, mas que ainda me sinto muito nova pra ser mãe. Queria te contar que na verdade não sei se quero ser mãe. Queria te contar sobre as pessoas que meu irmão e eu nos tornamos. Queria te mostrar fotos das filhas da Jú, do Fábio, da Ká. Queria que você cortasse meus cabelos. Queria te contar que meu pai passou pela mesma coisa e também foi embora, e que nossa casa não existe mais; mas que estamos ok. Queria te contar que sempre sonho com você, e quase sempre você está cuidando do meu pai. Queria envelhecer com você. Queria te levar em Roma. Queria andar na praia, com você, meu pai, meu irmão, minha tia, e a Janaina. Queria te levar na Target. Queria que você me convencesse a ser mãe, e que estivesse aqui pra me ensinar. Queria te falar que aprendi que a gente está preparado pra quase qualquer coisa, e que você é a mãe que a gente sempre quis. Queria te falar que seu amor ainda está aqui, por todos os lados. As vezes numa musica, as vezes quando falo com meu irmão. Queria te contar que descobri que depois que a gente vai embora a gente passa a morar dentro de quem a gente ama, e depois disso, mesmo que eu more longe de todo mundo, tenho tanta gente comigo! Tenho você tão viva dentro de mim.


Hoje queria ir num parque cheio de flores (é primavera!) pra ver se te encontrava em alguma cor, algum passarinho. Mas não fui, te encontro em mim quase todo dia, no contorno das minhas mãos, num perfil diferente no espelho. As vezes escuto sua voz quando falo alguma coisa bem espontaneamente. Você vai estar em mim também quando chamarem meu nome e eu receber meu diploma este mês. Você me trouxe aqui. E vai me levar pra qualquer lugar que eu vá até o fim. Obrigada por me ensinar a maior lição da minha vida: se acostume, tudo vai mudar uma hora ou outra, mas o amor permanece pra sempre. Obrigada por nos deixar esse amor que nos protege pra sempre!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

"Quero meu filho pisando firme, cantando alto, sorrindo livre..."

Tenho andado ocupada, o mestrado tem tomado meu tempo, o que é bom. Descobri que sou viciada em estar ocupada, a cabeça pensa nas coisas que tenho que fazer, à noite fica fácil dormir, a vida parece que toma um sentido. Mas mesmo assim, essa dor vazia insiste em aparecer em momentos que parecem aleatórios. Minha terapeuta me lembrou que ainda é recente a morte do meu pai. Eu sinto que tenho esse luto por anos.

Entrei de férias semana passada, morrendo de medo dos dias livres. É um saco! Está tudo bem, mas as vezes choro escovando os dentes. Não tenho depressão. Além de ser tudo recente, essa época do natal bate forte! Já faz umas semanas que tenho tentado me preparar pra o natal. Quase decidi em não ter natal, ficar em casa sozinha, fingindo ser apenas uma noite de quarta-feira. Esse é sem duvida o natal mais difícil da minha vida. Estou longe da minha familia, primeiro natal sem meu pai, lembranças dos últimos dois natais com ele doente, quando tudo que eu pensava era que aqueles eram meus últimos natais com ele.

Final de ano tem um significado forte de recomeço, e eu venho tentado pensar no que fazer para ter uma vida melhor, para me acostumar mais com essas dores, esses vazios. Já nem consigo falar com ninguém sobre isso, parece que estou presa num ciclo, eu mesma me canso. Acho que ainda estou apegada nessa dor. Parece que meus pais, principalmente meu pai, vive por meio dela. Parece que se eu não sentir mais desse jeito, estarei me despedindo dele com vontade. Não quero. Quero a lembrança dele aqui comigo todo dia, quero lembrar das palhaçadas, das confusões, dele super apegado com a família, do cuidado com os sapatos e as flores. Quero lembrar dele não se conformando de eu ter vindo pros Estados Unidos. Quero lembrar dele reclamando de NY. Quero lembrar todo dia do que eu senti quando levei ele pro hospital sabendo que ele não voltaria, quando vi nos olhos do medico que seria naquele dia. Quero me lembrar das musicas que ele cantava meio sem sentido em suas ultimas semanas. Todo dia eu lembro da sensação de desamparo de quando não senti mais seu pulso. Todo dia eu lembro da tristeza profunda de voltar pra casa dirigindo seu carro, só com meu irmão. Todo dia penso na nossa casa vazia, me culpo por não estar com meu irmão e nossos cachorrinhos. Penso todo dia, não quero esquecer. Tem sempre uns dois dias na semana que choro por um minuto, e passa. Parece que assim seguro ele aqui comigo por mais tempo.

Quase todos os dias, vendo tv, ouvindo alguém contar alguma historia sobre seus pais, penso que nao é muito justo que nao tenho a chance de ver meus pais envelhecerem, ter um porto seguro, ter filhos com avos, tê-los vendo as conquistas minhas, do meu irmão, e meus primos. As vezes me paralisa o constante remoer do que isto significa na minha vida. O tamanho dessas faltas me faz parar e pensar perplexa na tristeza disso tudo, e como foi possível acontecer.

Mas no fim, de verdade, não acho que está certo me paralisar. Não é justo com eles faze-los viver na minha dor. Meus pais ficariam muito tristes com isso. Lembro que meu pai sofria de uma certa nostalgia quando eu estava crescendo. Ele sempre remoeu a morte de uma tia muito querida, em alguns domingos de manha ele ficava ate depressivo. A morte da minha mãe, ele nunca superou, chorava igual criança mesmo depois de anos. Mas ele não gostaria que fosse assim com a gente. Minha mãe cresceu sem a mãe, e era forte. Não era de choramingar, de se colocar de vitima. Ela perdeu pessoas queridas quando eu era adolescente. Ela deveria ser meu exemplo.

Quero muito para 2015 aprender a fazer meus pais viverem nas nossas conquistas, nos dias alegres. Não honro meus pais com dor, com tristeza. A vida é um ciclo, e as vezes sinto que esqueço disso, e vivo num mundo egoista olhando para minha dor.

Natal é dificil, porque sempre foi tão familia e tão feliz. Lembro de ter um lado da minha familia reunida, presentes, decoração, comida, risadas. Para mim e meus primos tudo parecia completo, mas olhando para trás não era. Minha mãe nunca passou natal com a familia dela, meus avos com certeza sentiam falta dos irmãos, dos pais. A gente cresce, e as ausências vão aumentam. As crianças que dão a falsa impressão de completude. Era tão bom.

Um ciclo, pessoas vão, deixam um buraco sem tamanho, que vira cicatriz. Outras pessoas vem, nascem novos membros da familia. A gente transforma as dores em algo mais. Queria que fosse facil me desapegar dessa dor. Quero essa lição pra 2015.